Definição
Expressão de Lélia Gonzalez para o racismo como sintoma da cultura brasileira, que celebra referências negras e encobre a violência racial que as produziu.
Em Racismo e sexismo na cultura brasileira (1984), Lélia Gonzalez propôs que o racismo se constitui como a sintomática da neurose cultural brasileira. A expressão é um recurso teórico, não um diagnóstico de um povo: assim como o neurótico produz sintomas que ocultam e expressam um conflito inconsciente, a cultura produziria, pelo mito da democracia racial, formas de encobrir e, ao mesmo tempo, expressar a violência racial que a estrutura.
Apoiando-se em Lacan, a autora distingue consciência e memória. A consciência é o lugar do desconhecimento, onde prevalece o discurso dominante e o mito da harmonia. A memória guarda o que a consciência recusa: saberes, histórias e experiências que não cabem no discurso oficial. A cultura brasileira saberia de sua africanidade e de sua violência racial, mas as mantém em regime de desconhecimento. O saber retorna deformado, como sintoma, na religiosidade, na culinária, na música e na língua falada, que Gonzalez chamou de pretuguês, celebradas e separadas das pessoas negras que as produziram.
A autora ilustra o mecanismo com as figuras fixas da mulher negra no imaginário nacional: a mulata, exaltada no Carnaval; a doméstica, encarregada do cuidado cotidiano; e a mãe preta, lembrada com afeto e condescendência. Em todas, o corpo negro é requisitado e desvalorizado. Como interpretação histórico-cultural, e não como evidência de que todos os brasileiros partilham o mesmo conflito psíquico, a noção segue aberta à crítica.
Verbete elaborado a partir da pesquisa de Laryssa Grazielly de Lima Sousa Araújo (Revista NEXO, e0014). Revisão editorial: NEXO. Quer expandir este verbete? Colabore gratuitamente com o NEXO; quem amplia divide a autoria, sem hierarquia.