NEXOEcossocialismoÍndice
Três pesquisadores em um debate, com montanhas, turbinas eólicas e uma cidade ao fundo.

Capítulo III

Marx, Engels e as raízes do Ecossocialismo

Ruptura metabólica, as três ondas do ecossocialismo e a disputa sobre o que Marx viu da natureza.

Entre debates, pesquisas e livros, o ConceitoEcossocialismoA corrente que une a crítica marxista ao capitalismo com a defesa radical da natureza: não há transformação ecológica sem transformação social.Ver no Atlas do NEXO vem sendo divulgado como uma alternativa radical para o meio ambiente. Contudo, é importante analisar sua ligação com o marxismo. No capítulo anterior, foi abordada, de forma breve, a diferença entre socialismo, comunismo e sua relação com o ecossocialismo, contudo é importante pontuar que mesmo entre pensadores da corrente ecossocialista existem divergências significativas.

AutorKohei Saiton. 1987Ecologia marxista, decrescimentoPrincipal obra: O Ecossocialismo de Karl Marx (2017)Filósofo japonês cujo trabalho sobre o Marx ecológico e o decrescimento alcançou repercussão global.Ver no Atlas do NEXO (2021) escreve que “a insustentabilidade ambiental é a contradição do sistema”, e também alega que em seus últimos anos, AutorKarl Marx1818–1883Materialismo histórico-dialéticoPrincipal obra: O Capital: Crítica da Economia Política (1867)Filósofo, economista e revolucionário alemão. Sua crítica da economia política, sistematizada em O Capital, tornou-se a base teórica de toda análise anticapitalista moderna: incluindo a leitura ecológica do capitalismo retomada hoje por Foster, Saito e o ecossocialismo.Ver no Atlas do NEXO definiria o colapso climático como sendo “o problema mais sério do capitalismo” (p. 142). AutorMichael Löwyn. 1938EcossocialismoPrincipal obra: O que é Ecossocialismo? (2014)Sociólogo franco-brasileiro, um dos principais teóricos do ecossocialismo contemporâneo.Ver no Atlas do NEXO, porém, apresenta outra interpretação, ressaltando que Marx não teria antecipado uma crise ecológica tal como entendemos hoje.

Uma ecologia que ignora ou despreza o marxismo e sua crítica ao fetichismo da mercadoria está condenada a ser nada mais que um corretivo para os “excessos” do produtivismo capitalista.
Löwy, 2023, p. 61

Se é verdade que a ecologia não ocupa um lugar central no aparato teórico e político de Marx e AutorFriedrich Engels1820–1895Materialismo histórico-dialéticoPrincipal obra: A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra (1845)Filósofo e teórico social alemão, parceiro intelectual de Marx por quatro décadas. Autor de 'A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra' e da 'Dialética da Natureza', foi quem primeiro levou a dialética às ciências naturais: antecipando o diálogo entre marxismo e ecologia.Ver no Atlas do NEXO, não é menos verdade que é impossível pensar em uma ecologia crítica à altura dos desafios contemporâneos sem levar em conta a crítica marxiana da economia política e sua análise da ruptura do metabolismo entre as sociedades humanas e a natureza.

Durante muito tempo, Marx e Engels foram vistos como produtivistas por ecologistas, contudo, ao analisarmos suas obras, é possível perceber preocupações com a redução da jornada de trabalho, com o tempo livre e com a ideia de que o “ser” deve prevalecer sobre o “ter”, aspectos que se aproximam de perspectivas ecológicas contemporâneas.¹Nota para aprofundamentoA crítica ao produtivismo presente no ecossocialismo ganha profundidade quando observada à luz da ecologia política latino-americana. Carlos Walter Porto-Gonçalves demonstra que o capitalismo reorganiza territórios e modos de vida a partir de uma lógica de mercantilização ilimitada, intensificando conflitos ambientais e aprofundando desigualdades. Essa perspectiva evidencia que a ruptura metabólica não é apenas ecológica, mas também territorial e cultural.Clique para ver a nota

Já em ObraO Capital: Crítica da Economia PolíticaKarl Marx, 1867Crítica da economia políticaA obra máxima de Marx: a anatomia do capitalismo a partir da mercadoria, do valor e da mais-valia.Ver no Atlas do NEXO (2023), nota-se uma percepção clara do caráter destrutivo que as forças produtivas poderiam assumir:

Por isso, a produção capitalista só desenvolve a técnica e a combinação do processo de produção social na medida em que solapa os mananciais de toda a riqueza: a terra e o trabalhador.
Marx, 2023, p. 574

Löwy (2023, p. 52) observa ainda que os textos de Marx e Engels sobre natureza devem ser considerados “não como um bloco uniforme”, mas como um pensamento em movimento. Essa evolução é perceptível ao longo dos anos, e seria excessivamente “profético” esperar que Marx e Engels pudessem dialogar com a crise ambiental atual, que não existia em sua forma contemporânea.

Ainda assim, é possível identificar que, a partir do Volume I de O Capital (2023), temas ligados à problemática ecológica ganham maior evidência, especialmente nas análises sobre o metabolismo social e a exaustão dos solos, sendo um apontamento para os limites materiais do modo de produção capitalista.²Nota para aprofundamentoO conceito de metabolismo social, desenvolvido por Karl Marx a partir das ciências naturais do século XIX, refere-se ao processo de troca material entre a sociedade humana e a natureza. Segundo Marx, o capitalismo rompe esse metabolismo ao separar o produtor da terra, gerando desequilíbrios ecológicos, como a exaustão dos solos analisada no Volume I de O Capital.Clique para ver a nota

As três ondas do ecossocialismo

A análise sobre a relação dos escritos de Marx e Engels a respeito da natureza foi sendo aprofundada ao longo de décadas, sobretudo quando a crise ecológica se tornou incontornável. Dessa forma, um caminho metodológico promissor é observar como diferentes gerações de pesquisadores reinterpretam Marx e Engels à luz da questão ambiental. Para isso, a literatura costuma identificar três ondas do ecossocialismo, que revelam não apenas o amadurecimento teórico do campo, mas também a ampliação das leituras sobre o metabolismo social e as contradições ecológicas do capitalismo. Somente após essa contextualização histórica torna-se possível compreender plenamente o que chamamos hoje de ecossocialismo.

A primeira onda ecossocialista, situada entre as décadas de 1970 e 1990, corresponde às primeiras tentativas de unir marxismo e ecologia de modo sistemático. Entre seus representantes estão Manuel Sacristán, Raymond Williams, André Gorz, James O’Connor e Frieder Otto Wolf. Esse grupo buscou reexaminar Marx à luz da crise ambiental emergente, questionando leituras reducionistas que consideravam o marxismo um aliado automático do produtivismo.

O surgimento de uma corrente ecológica inspirada no marxismo, a partir dos anos 1970, representou um avanço teórico e político significativo. Esses pioneiros ousaram romper tanto com o produtivismo associado ao chamado “socialismo real” quanto com o ambientalismo liberal, propondo uma crítica radical da lógica capitalista e de seus efeitos destrutivos sobre a natureza.
Löwy, 2014, p. 17

A primeira onda, portanto, tem caráter fundacional: ela formula as perguntas e contesta leituras equivocadas sobre os clássicos do marxismo.

A segunda onda do ecossocialismo³Nota para aprofundamentoA formulação contemporânea do ecossocialismo, especialmente a partir da segunda onda, encontra sua síntese no pensamento de Michael Löwy. O autor argumenta que não é possível enfrentar a crise ecológica sem superar o capitalismo e seu produtivismo estrutural, defendendo um projeto político anticapitalista baseado na igualdade, na democracia radical e na gestão coletiva dos bens naturais.Clique para ver a nota (1990 a 2010) traz ao ecossocialismo uma teoria mais encorpada. Surgindo como principais formuladores do pensamento: Michael Löwy, Joel Kovel e AutorJohn Bellamy Fostern. 1953Ecologia marxista, ruptura metabólicaPrincipal obra: A Ecologia de Marx (2000)Sociólogo estadunidense que recuperou a ecologia no pensamento de Marx via o conceito de ruptura metabólica.Ver no Atlas do NEXO. Esse período é importante devido ao surgimento do Manifesto Ecossocialista Internacional (2001) e da fundação da Rede Ecossocialista Internacional (2007). Foster desenvolve a teoria da ConceitoRuptura MetabólicaA fratura, provocada pelo capital, na troca material entre a sociedade humana e a natureza.Ver no Atlas do NEXO com base em Marx e Liebig.

Foi no Manifesto de 2001 que o ecossocialismo apareceu de forma programática, no qual Löwy formulou um projeto socialista radical voltado à superação do capitalismo e do produtivismo.

O ecossocialismo propõe uma transformação radical das estruturas econômicas, sociais e culturais que sustentam o capitalismo. Ele exige uma reorientação profunda das forças produtivas e das relações humanas com a natureza, baseada na democracia, na igualdade e no respeito aos limites ecológicos do planeta.
Löwy, 2014, p. 98

John Bellamy Foster recoloca Marx no centro do debate ambiental contemporâneo, mostrando que a categoria metabolismo (Stoffwechsel) já estava presente em O Capital (2023), em especial em sua análise sobre o esgotamento dos solos causado pela agricultura capitalista. Sendo assim, a segunda onda não apenas consolida o ecossocialismo como corrente teórica, mas recupera Marx como referência central na explicação da crise ecológica. Por mais que exista um período formal de fim da segunda onda, não significa que o pensamento tenha sido deixado de lado, fato que é possível perceber devido à presente atuação de Löwy nos dias atuais.

O metabolismo social

O conceito de metabolismo social é fundamental para compreender por que Marx e Engels enxergavam limites ecológicos na produção capitalista. Para Marx, o metabolismo (Stoffwechsel) descreve o processo contínuo de troca entre os seres humanos e a natureza. Quando esse processo é apropriado pelo capital, ele se torna desregulado e destrutivo, rompendo ciclos naturais, esgotando o solo e degradando o ambiente. Essa formulação mostra que a crítica marxiana não é apenas econômica, mas também ecológica.

É nesse ponto que autores da segunda onda, como John Bellamy Foster e Paul Burkett, tornam-se essenciais. Foster recupera o conceito de metabolismo para mostrar que a crítica ecológica já estava presente nos escritos de Marx, especialmente em suas análises sobre o esgotamento dos solos e a destruição das condições naturais de ConceitoReprodução SocialO processo pelo qual as estruturas econômicas, culturais e ideológicas de uma sociedade se perpetuam de geração em geração, com ou sem a consciência dos sujeitos.Ver no Atlas do NEXO. Burkett, por sua vez, demonstra como a economia política marxista oferece ferramentas para compreender a natureza como parte integrante do processo produtivo, e não como um mero recurso externo. Juntos, eles consolidam a ideia de que o ecossocialismo não é uma leitura forçada de Marx, mas a continuidade de elementos já presentes em sua obra.

Dessa forma, a terceira onda do ecossocialismo (2010 até hoje) não se trata do término da segunda, mas de uma ampliação teórica com novos nomes como Kohei Saito, Andreas Malm, Jason Moore, Ariel Salleh, entre outros.

É especialmente Kohei Saito que impulsiona uma nova leitura de Marx marcada pela urgência climática. Em sua obra mais recente, o autor argumenta que Marx, em seus últimos anos, caminhou para uma crítica ainda mais profunda da ideia de progresso ilimitado, enfatizando que ele não tratava a relação sociedade-natureza como algo externo ou secundário, mas como parte orgânica da crítica à economia política. Ou seja, Saito considera o metabolismo um conceito ecológico central no desenvolvimento tardio de Marx.

Permanece a reserva em aceitar a ecologia de Marx entre os chamados ecossocialistas do primeiro estágio. Os críticos da teoria da ruptura metabólica reclamam que a “ecologia de Marx”, como tal, pode, na melhor das hipóteses, apontar o fato banal de que o capitalismo é prejudicial ao meio ambiente.
Saito, 2021, p. 21-22

Assim, a terceira onda caracteriza-se como uma fase de ampliação e radicalização do ecossocialismo, voltada à crítica do capitalismo global em crise climática terminal.⁴Nota para aprofundamentoAs reflexões de Ailton Krenak dialogam profundamente com a crítica ecossocialista da terceira onda, ao questionarem o modo de vida baseado na exploração contínua da terra e na separação entre humanidade e natureza. Para Krenak, a crise ecológica é resultado de uma lógica civilizatória que transforma a vida em mercadoria e rompe laços comunitários e espirituais com o território.Clique para ver a nota

Notas para Aprofundamento

¹

A crítica ao produtivismo presente no ecossocialismo ganha profundidade quando observada à luz da ecologia política latino-americana. Carlos Walter Porto-Gonçalves demonstra que o capitalismo reorganiza territórios e modos de vida a partir de uma lógica de mercantilização ilimitada, intensificando conflitos ambientais e aprofundando desigualdades. Essa perspectiva evidencia que a ruptura metabólica não é apenas ecológica, mas também territorial e cultural.

  • PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. A Globalização da Natureza e a Natureza da Globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
²

O conceito de metabolismo social, desenvolvido por Karl Marx a partir das ciências naturais do século XIX, refere-se ao processo de troca material entre a sociedade humana e a natureza. Segundo Marx, o capitalismo rompe esse metabolismo ao separar o produtor da terra, gerando desequilíbrios ecológicos, como a exaustão dos solos analisada no Volume I de O Capital.

  • MARX, Karl. O capital. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2023.
  • FOSTER, John Bellamy. A ecologia de Marx. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
³

A formulação contemporânea do ecossocialismo, especialmente a partir da segunda onda, encontra sua síntese no pensamento de Michael Löwy. O autor argumenta que não é possível enfrentar a crise ecológica sem superar o capitalismo e seu produtivismo estrutural, defendendo um projeto político anticapitalista baseado na igualdade, na democracia radical e na gestão coletiva dos bens naturais.

  • LÖWY, Michael. O que é Ecossocialismo. São Paulo: Cortez, 2014.
⁴

As reflexões de Ailton Krenak dialogam profundamente com a crítica ecossocialista da terceira onda, ao questionarem o modo de vida baseado na exploração contínua da terra e na separação entre humanidade e natureza. Para Krenak, a crise ecológica é resultado de uma lógica civilizatória que transforma a vida em mercadoria e rompe laços comunitários e espirituais com o território.

  • KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
Marx e Engels em colagem, com arquitetura brutalista, multidão e indústria.