
Capítulo IV
O que é Ecossocialismo?
Valor de uso no lugar do lucro, planejamento democrático e um modo de vida, não só um modelo econômico.
Além das diferentes ondas do ConceitoEcossocialismoA corrente que une a crítica marxista ao capitalismo com a defesa radical da natureza: não há transformação ecológica sem transformação social.Ver no Atlas do NEXO, vistas no capítulo anterior, é importante compreender que o socialismo aliado à ecologia possui diversas ramificações. Contudo, algumas correntes “concebem a economia como inserida no meio ambiente: social para uns, natural para outros” (AutorMichael Löwyn. 1938EcossocialismoPrincipal obra: O que é Ecossocialismo? (2014)Sociólogo franco-brasileiro, um dos principais teóricos do ecossocialismo contemporâneo.Ver no Atlas do NEXO, 2014, p. 38). Dessa forma, o maior objetivo dessas correntes é analisar a necessidade de se tomar consciência sobre as ameaças do modo de produção e consumo capitalista.
Como visto, o ConceitoCapitalismo VerdeA promessa de conciliar crescimento econômico e proteção ambiental sem tocar na lógica de acumulação: uma falsa solução.Ver no Atlas do NEXO é insuficiente para uma mudança realmente radical, da mesma forma uma crítica marxiana que não considera a ecologia em relação ao produtivismo está alinhada à mesma falácia.
O ecossocialismo está longe de ser um pensamento homogêneo, mas conforme dito por James O’Connor, o socialismo ecológico se trata de uma sociedade racional, fundada no controle democrático, na igualdade social e na predominância do ConceitoValor de UsoA utilidade concreta de uma coisa, aquilo que ela serve para fazer. A face palpável da mercadoria, ligada às suas propriedades materiais.Ver no Atlas do NEXO. Contudo, Löwy expande essa ideia com argumentos essenciais no raciocínio ecossocialista e pontos para um planejamento democrático.¹Nota para aprofundamentoA proposta ecossocialista pressupõe repensar o próprio significado de desenvolvimento. Autores como Leonardo Boff defendem que a crise ecológica é resultado de uma ruptura espiritual, ética e política entre humanidade e natureza. Para Boff, somente uma sociedade baseada no cuidado, na cooperação e na corresponsabilidade ecológica pode enfrentar o colapso socioambiental.Clique para ver a nota
- Países capitalistas avançados possuem uma lógica de acumulação ilimitada, consumindo muito mais energia do que os demais países. Dessa forma, aumenta-se a desigualdade entre o Norte e o Sul.
- Mesmo que o capitalismo continue avançando de forma brutal e desigual, cuidar da preservação do meio ambiente é um imperativo humanista, ou seja, é uma obrigação ética, fazendo com que reformas parciais sejam insuficientes.
- É necessário reorganizar os sistemas de transportes com critérios sociais e ecológicos.
Pensar em quais medidas são necessárias para reparar, urgentemente, os estragos causados pelo capitalismo.
Essa transição levaria não apenas a um novo modo de produção e a uma sociedade igualitária e democrática, mas também a um modo de vida alternativo, a uma civilização nova, ecossocialista, para além do reino do dinheiro, dos hábitos de consumo artificialmente induzidos pela publicidade, e da produção ao infinito de mercadorias nocivas ao meio ambiente (o carro individual!).
Em seu livro Se eu quiser mudar o mundo, AutorSabrina Fernandesn. 1988Ecossocialismo, crítica da esquerda contemporâneaPrincipal obra: Se Quiser Mudar o Mundo: um guia político para quem se importa (2020)Socióloga brasileira, uma das principais divulgadoras do ecossocialismo em língua portuguesa. Criou o canal Tese Onze e escreve sobre clima, transição energética e os impasses da esquerda diante da crise ecológica.Ver no Atlas do NEXO argumenta que por mais que se defina como defensora do ecossocialismo, não pode apresentar um passo a passo para que ele se concretize. Contudo, existe uma orientação importante: avaliar a realidade desde o ponto de partida até o resultado desejado, reconhecendo que não há transformação sem análise crítica das condições materiais.²Nota para aprofundamentoO ecossocialismo também se aproxima das reflexões sobre decrescimento, que criticam a obsessão pelo crescimento econômico contínuo, uma lógica incompatível com um planeta de recursos finitos. Pesquisadores como Giorgos Kallis mostram que a busca infinita por lucro e produtividade destrói ecossistemas, gera desigualdades e impede uma relação saudável com a natureza.Clique para ver a nota
O ecossocialismo é um projeto revolucionário não porque “revolucionário” soa mais intenso, mas porque se entende que não será possível construir uma sociedade de fato transformada sem uma grande ruptura com o capitalismo.
Uma sociedade organizada pelo valor de uso
Pode-se afirmar que o maior projeto ou objetivo do ecossocialismo seja uma sociedade construída na emancipação humana e no equilíbrio ecológico. Ou seja, nessa sociedade, os trabalhadores seriam recompensados por seu trabalho de forma justa, alterando a forma de produção e consumo, criando uma nova relação com a natureza.
Quando Fernandes afirma que o ecossocialismo é um projeto revolucionário, é muito mais que uma mera metáfora, é um indicativo de que exigirá uma transformação real. Um novo sistema deve romper com as bases estruturais do capitalismo: a exploração do trabalho, o produtivismo ilimitado e a mercantilização da natureza.³Nota para aprofundamentoAs reflexões latino-americanas sobre território e resistência comunitária enriquecem profundamente o ecossocialismo. Autoras como Maristella Svampa analisam como os modelos extrativistas da América Latina aprofundam desigualdades e aceleram o colapso ecológico. Para Svampa, alternativas reais surgem das práticas comunitárias, da agroecologia, da economia solidária e das lutas socioambientais dos povos originários.Clique para ver a nota
Uma sociedade ecossocialista não irá se organizar pelo lucro, mas pelo valor de uso, não irá pensar em um crescimento econômico infinito que desrespeite o bem-estar coletivo e não tratará o meio ambiente como recurso, mas como condição fundamental para a vida.
O ecossocialismo propõe uma alternativa radical na relação humanidade-natureza, retomando o metabolismo social que foi interrompido pelo capital. Mais que um modelo econômico, é um novo modo de vida, sendo baseado na cooperação, justiça social e no cuidado com todas as formas de existência. Sendo um horizonte em que a emancipação humana e o equilíbrio ecológico caminham juntos e se tornam inseparáveis.
Notas para Aprofundamento
A proposta ecossocialista pressupõe repensar o próprio significado de desenvolvimento. Autores como Leonardo Boff defendem que a crise ecológica é resultado de uma ruptura espiritual, ética e política entre humanidade e natureza. Para Boff, somente uma sociedade baseada no cuidado, na cooperação e na corresponsabilidade ecológica pode enfrentar o colapso socioambiental.
- BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: o que é, o que não é. Petrópolis: Vozes, 2015.
- BOFF, Leonardo. Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres. Petrópolis: Vozes, 1995.
O ecossocialismo também se aproxima das reflexões sobre decrescimento, que criticam a obsessão pelo crescimento econômico contínuo, uma lógica incompatível com um planeta de recursos finitos. Pesquisadores como Giorgos Kallis mostram que a busca infinita por lucro e produtividade destrói ecossistemas, gera desigualdades e impede uma relação saudável com a natureza.
- KALLIS, Giorgos. Decrescimento. São Paulo: Elefante, 2020.
- LATOUCHE, Serge. Pequeno tratado do decrescimento sereno. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
As reflexões latino-americanas sobre território e resistência comunitária enriquecem profundamente o ecossocialismo. Autoras como Maristella Svampa analisam como os modelos extrativistas da América Latina aprofundam desigualdades e aceleram o colapso ecológico. Para Svampa, alternativas reais surgem das práticas comunitárias, da agroecologia, da economia solidária e das lutas socioambientais dos povos originários.
- SVAMPA, Maristella. As fronteiras do neoextrativismo na América Latina. São Paulo: Elefante, 2019.
- SVAMPA, Maristella. O colapso ecológico já chegou. São Paulo: Elefante, 2022.

Expandindo o tema
Para seguir daqui
- vídeoSabrina Fernandes apresenta uma visão geral clara e acessível sobre o ecossocialismo, explicando suas bases teóricas, principais autores e por que essa corrente surge como alternativa ao capitalismo diante da crise climática.
- artigoDefende que apenas um ecossocialismo radical e democrático pode enfrentar a crise climática, criticando soluções superficiais e apontando a necessidade de transformar as bases do capitalismo.
- filmeO curta Recife Frio usa uma mudança climática absurda para expor desigualdades urbanas e a incapacidade do capitalismo de responder às crises ambientais, reforçando a crítica ecossocialista à necessidade de transformações estruturais.
