A resistência e o que fica
Coleção Bacurau · Trilha 2 · Módulo 6
"Estamos sob o efeito de fortes psicotrópicos."
Professor Plínio, em Bacurau (2019)

Quando a resistência de Bacurau começa de verdade, ela começa com uma declaração incomum.
O Professor Plínio não mobiliza a comunidade com um discurso de guerra. Ele anuncia, com a mesma voz tranquila que usou no velório de Carmelita, que todos estão sob o efeito de substâncias psicoativas. Que a Damiana, a médica itinerante, preparou o que seria necessário. Que a comunidade sabe o que tem pela frente e se preparou com o que tem.
Esse "com o que tem" é a chave de tudo.
O arsenal de Bacurau não vem de fora. Vem do museu: as armas dos cangaceiros, guardadas como memória, transformadas em recurso presente quando a necessidade chega. O conhecimento das plantas, desenvolvido por gerações na relação com aquele sertão específico, aplicado como estratégia de combate. O mapa mental de cada trilha, cada curva, cada esconderijo, acumulado por quem viveu ali a vida inteira, usado contra invasores que chegaram com GPS mas sem nenhum conhecimento real do lugar.
Jefferson Agostini Mello (2021) analisa essa estrutura como uma reativação da tradição de Canudos: a comunidade periférica que usa o próprio território como vantagem estratégica contra uma força superior em equipamento mas inferior em conhecimento. Os sertanejos de Antônio Conselheiro conheciam a caatinga de um jeito que o exército da República não conhecia. Os moradores de Bacurau conhecem cada palmo do sertão que os americanos e europeus viram pela primeira vez em fotografias de satélite. O conhecimento territorial acumulado coletivamente é, nesses dois casos, a equalização que torna a resistência possível.
Mas o filme vai além da vitória tática. Como analisam Martins e Mayor (2022, p. 492), a resistência de Bacurau "sabe de sua própria parcialidade". A comunidade vence esse confronto específico. E o filme não deixa que essa vitória seja sentida como definitiva.
Michael não é morto. É enterrado vivo.
Mello (2021) interpreta essa escolha como a recusa do desfecho fácil: a vitória que limpa a história e encerra o ciclo. Enterrar vivo é dizer que o mal não foi eliminado, apenas contido. Que há algo subterrâneo que permanece. Que a vigilância precisa continuar. É uma imagem perturbadora exatamente porque não é satisfatória: você não sai do cinema com a sensação de que o perigo acabou.
E então aparecem as duas últimas palavras: "Outros virão."
Não é uma ameaça. Não é uma promessa. É uma análise. A mesma frase que poderia ter sido dita sobre os colonizadores portugueses, sobre os coronéis do século XIX, sobre os militares da ditadura, sobre os garimpeiros ilegais, sobre qualquer forma histórica de violência organizada contra comunidades periféricas brasileiras. A ameaça se repete em formas diferentes. O que muda é a comunidade que resiste e o que ela acumulou para fazer isso.
Oliveira, Jesus e Araújo (2025, p. 4-5) sintetizam o argumento do filme: "A resistência coletiva e organizada do povo de Bacurau evidencia a força da identidade territorial e da solidariedade comunitária como formas de enfrentamento à opressão. A comunidade não se submete passivamente ao extermínio planejado; ao contrário, articula-se estrategicamente, partindo do conhecimento ancestral de seu território, para reverter a lógica colonial que busca dominá-la."

O que o filme propõe, então, não é a vitória como solução. É a resistência como forma de existência contínua. E a memória como condição dessa resistência: o museu que guarda as armas, a Damiana que guarda o conhecimento das plantas, o Professor Plínio que guarda a história e a transmite de um ônibus em movimento.
Essa é também a resposta implícita do filme à pergunta que a Trilha 1 levantou desde o começo: o que o cinema pode fazer pela educação? Não ensinar conteúdo de forma ilustrada. Provocar o tipo de desconforto que obriga a perguntar: qual é a minha posição nessa estrutura? Quem são os meus Tony Jrs? Quem é a minha comunidade, e o que ela acumulou que pode ser usado quando os outros vierem?
"Outros virão" não é o fim de uma história. É o começo de uma pergunta que não tem resposta no crédito final.
E é por isso que esta trilha, assim como a anterior, não termina com uma conclusão. Termina com o convite a voltar ao filme. Agora com mais perguntas do que antes. Que é exatamente o que um bom filme político deveria produzir.
REFERÊNCIAS COMPLETAS DA TRILHA 2
ALBERT, Saulo. Bacurau e as paradoxais relações de dominação no Brasil: uma análise bourdieusiana. Revista Livre de Cinema, v. 10, n. 1, 2023.
BARTHES, Roland. A câmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Ateliê Editorial, 1902.
FERREIRA, Amilton Macário de Araújo; PEREIRA, Isael de Sousa. Bacurau, se for vá na paz: análise da violência como signo de nordestinidade presente no filme. Intercom, 2025.
MARTINS, Carla Macedo; MAYOR, Ana Lucia de Almeida Soutto Mayor. Bacurau: no futuro, só resistência? Novos Estudos CEBRAP, v. 41, n. 3, p. 489-505, 2022.
MELLO, Jefferson Agostini. Bacurau não é um filme de vingança. Sanda, v. 9, n. 2, p. 424-437, 2021.
OLIVEIRA, Glaibson Santos; JESUS, José Jivaldo Oliveira de; ARAÚJO, Thaciane Carneiro. Resenha crítica: Bacurau, a resistência que o Brasil precisa ver. Diálogos e Perspectivas Interventivas, Serrinha, v. 6, n. 2, e26644, 2025.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. A resistência e o que fica. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). A resistência e o que fica. Revista NEXO, .