BNCC Computação em 2026: o que muda, e quem decidiu que era prioridade
A BNCC Computação chegou. Ninguém perguntou ao professor se ele queria.
Resumo
Este ensaio discute a obrigatoriedade, a partir de 2026, do Complemento de Computação da Base Nacional Comum Curricular, que introduz o ensino de inteligência artificial em todas as escolas brasileiras. A partir de pesquisas sobre a origem da BNCC e de um levantamento preliminar sobre como a BNCC Computação trata o pensamento crítico, argumenta-se, com apoio na noção freireana de educação bancária e em autores como Neil Selwyn e Henry Giroux, que o risco central não é ensinar inteligência artificial, mas ensiná-la como operação de ferramenta, sem espaço para questionar os dados, os interesses e as decisões automatizadas por trás dela.
Palavras-chave: BNCC Computação; Inteligência artificial na educação; Paulo Freire; Educação bancária; Currículo.
São vinte e duas horas e a professora ainda está com o notebook aberto na mesa da cozinha. O filho já dormiu. Ela abre o e-mail da coordenação pela terceira vez no dia, com o mesmo assunto: "Implementação da BNCC Computação: orientações para 2026". Ela lê por cima, cansada, e pensa a mesma coisa que qualquer professor pensaria: mais uma coisa. Mais uma sigla, mais um treinamento, mais uma exigência que chegou pronta, sem perguntar se cabia na sua sala, no seu tempo, na sua turma de trinta e dois adolescentes que mal têm acesso a um computador em casa.
Esse cansaço não é frescura. Ele é, ele mesmo, o primeiro dado importante desta conversa.
O que muda, de fato, em 2026
Vamos à parte factual, porque ela importa e porque você merece uma resposta direta antes de qualquer outra coisa: a partir de 2026, o chamado Complemento de Computação da Base Nacional Comum Curricular, homologado em 2022, passa a ser obrigatório em todas as escolas do Brasil, públicas e privadas. Ele organiza o ensino de computação em três eixos: Pensamento Computacional, Mundo Digital e Cultura Digital. Na prática, isso significa que noções de algoritmo, dado, automação e inteligência artificial deixam de ser assunto de curso extracurricular ou de escola particular bem equipada e passam a ser parte do que toda escola brasileira é obrigada a ensinar.
Até aqui, é só informação. Qualquer buscador te entrega isso. A pergunta que quase ninguém está fazendo é outra.
Quem decidiu que isso era prioridade?
Currículo nacional não nasce no vácuo. Ele é resultado de disputa, entre quem financia, quem pesquisa, quem está na sala de aula e quem nunca pisou numa escola pública. O pesquisador André Luiz da Silva Coube, em trabalho apresentado na Associação Nacional de Pós-Graduação em Educação (ANPEd), documentou algo incômodo sobre a origem da própria BNCC: sua construção contou com forte presença de fundações privadas (Fundação Lemann, Instituto Natura, Instituto Ayrton Senna, entre outras), organizadas desde 2013 no Movimento pela Base Nacional Comum, com pouco diálogo real com quem está dentro da escola (Coube, 2018). Uma delas, a Fundação Lemann, já publica hoje materiais explicando a nova implementação da BNCC Computação. Isso não prova orquestração, mas mostra continuidade de interesse entre quem ajudou a moldar a Base original e quem hoje ajuda a explicar sua atualização.
Isso é rastro documental, não teoria da conspiração, e ele muda a pergunta que vale fazer: a favor de que projeto de educação a BNCC Computação foi desenhada, e quem participou dessa mesa. Em pesquisa publicada na EccoS – Revista Científica, Amanda Gonçalves e Roberto Deitos chegam a uma conclusão dura sobre as competências gerais da BNCC: elas atendem, antes de tudo, a imperativos de mercado, e a reforma curricular acaba por reproduzir, não corrigir, uma sociedade desigual (Gonçalves; Deitos, 2020). O estudo deles analisou a BNCC geral, não o Complemento de Computação especificamente. Mas, se essa lógica se sustenta, cabe ao menos perguntar se um currículo que nasce assim carrega essa marca também na forma como propõe ensinar inteligência artificial.
O risco de ensinar IA do jeito errado
Paulo Freire tinha um nome para o tipo de educação que mais o preocupava: educação bancária. Nela, o professor deposita conteúdo e o aluno arquiva, sem diálogo, sem pergunta, sem transformação. Como o próprio Freire escreveu, é um ato de depositar, em que os educandos são os depositários e o educador, o depositante (Freire, [1968] 1974): conhecimento como mercadoria empilhada, não como algo que se constrói vivendo e questionando.
O risco concreto da BNCC Computação não é ensinar IA. É ensinar IA do jeito bancário.
Como manual de operação de ferramenta, sem espaço para perguntar o que essa ferramenta esconde, quem ela beneficia, que decisões automatiza sem consulta. Na prática, isso pode ser mais simples e mais silencioso do que parece: é a aula que ensina o aluno a escrever um bom comando para o ChatGPT, mas nunca pergunta com que dado aquele modelo foi treinado, quem foi pago, ou não foi, para rotular esses dados, ou o que acontece com tudo que a turma digita ali. É IA como conteúdo a ser operado, não como objeto a ser questionado: a mesma lógica bancária, só que mais nova.
Esse risco não é hipotético: é achado de pesquisa recente, ainda que preliminar. Um estudo de 2025, publicado como preprint no SciELO, ou seja, ainda não revisado por pares, mas já disponível para escrutínio público, analisou as atividades propostas pela BNCC Computação para a Educação Infantil e os Anos Iniciais. As próprias pesquisadoras usam Paulo Freire como referencial teórico da análise, e chegam a uma conclusão reveladora: o documento da BNCC Computação não evidencia, de forma clara, o estímulo ao pensamento crítico (Fidelis; Marcon, 2025).
Esse não é um problema exclusivamente brasileiro. Neil Selwyn, um dos pesquisadores mais respeitados do mundo em tecnologia educacional, vem alertando há anos para o risco que mais importa: a inteligência artificial na escola tende a substituir a reflexão por procedimento, muito antes de substituir fisicamente o professor (Selwyn, 2019). Em trabalho mais recente sobre letramento crítico de dados, a capacidade de questionar, e não só usar, os dados que plataformas coletam sobre o aluno, Selwyn e Luci Pangrazio insistem em um ponto que vale repetir: a datificação da educação, transformar cada gesto escolar em dado registrado e analisado, não é destino inevitável, é escolha política, e pode ser questionada (Selwyn; Pangrazio, 2023). Henry Giroux, um dos interlocutores vivos mais próximos do pensamento de Freire, ajuda a nomear o pano de fundo dessa disputa: sob o neoliberalismo, argumenta ele, a escola tende a funcionar como empresa e o estudante como consumidor (Giroux, 2021), um arranjo em que ensinar IA sem espaço crítico só reforça a engrenagem.
Cumprir sem obedecer
Aqui é onde este texto precisa ser honesto com você: a BNCC Computação é obrigatória. Você não vai poder simplesmente ignorá-la, e é legítimo precisar de ajuda prática para cumpri-la sem perder mais uma noite de sono em cima disso.
Mas cumprir uma exigência e obedecer cegamente a ela são coisas diferentes. Freire deixou uma ferramenta para essa distinção: ler o mundo antes de ler a palavra, entender o contexto por trás de todo texto que chega pronto até você, inclusive um currículo nacional. Aplicado à BNCC Computação, isso significa ensinar o que ela pede, mas também abrir, dentro da própria aula, a pergunta que o documento não fez: quem programa o algoritmo, com que dado ele foi treinado, que decisão ele está automatizando no lugar de uma pessoa. Isso não fere a exigência. Isso é o que separa cumprir tabela de formar gente.
Por que isso ainda emociona
Voltemos à professora, ainda na cozinha, ainda cansada. O motivo de ela ter escolhido dar aula, e a maioria de nós escolheu por algo parecido, nunca foi preencher um formulário curricular direito. Foi o momento em que um aluno entendeu algo, em voz alta, pela primeira vez, e o rosto dele mudou. Isso não desapareceu porque uma nova sigla chegou. Freire escreveu, mais tarde na vida, sobre a necessidade de esperançar: não esperar passivamente que a educação melhore, mas agir, todos os dias, com esperança como verbo (Freire, 1992). A BNCC Computação vai acontecer, com ou sem esse texto. A pergunta que fica de pé, a única que realmente importa, é se ela vai ser mais uma camada de conteúdo depositado, ou o pretexto para uma pergunta nova, feita em voz alta, numa sala de aula real, por alguém que ainda acredita que ensinar é um ato de transformação e não de arquivo.
Nota do Nexo: cumprir a BNCC Computação é obrigatório, pensar criticamente sobre ela também deveria ser. O Estúdio de Aula, no plano Educador, existe para ajudar com a primeira parte, para que sobre tempo e energia para a segunda.
Ler é o primeiro passo. Levar isso pra sua turma amanhã é outro.
O Estúdio de Aula monta, em minutos, um kit completo já alinhado à BNCC Computação: plano de aula, slides e avaliação, prontos para editar e usar.
Conhecer o Estúdio de Aula →Referências
- COUBE, André Luiz da Silva. BNCC: política de currículo neoliberal. In: Anais da 13ª Reunião Científica Regional da ANPEd-Sudeste, GT 12 – Currículo, 2018.
- FIDELIS, Aline; MARCON, Karina. O pensamento crítico na BNCC Computação nas etapas da Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. SciELO Preprints (preprint, ainda não revisado por pares), 2025. DOI: 10.1590/SciELOPreprints.13179.
- FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Escrito em 1968, durante o exílio; publicado no Brasil pela primeira vez em 1974. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
- FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
- GIROUX, Henry A. Pedagogia crítica e o legado de Paulo Freire para a democratização da educação: entrevista com Henry Giroux. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 47, e202147002001, 2021.
- GONÇALVES, Amanda Melchiotti; DEITOS, Roberto Antonio. Competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC): aspectos teóricos e ideológicos. EccoS – Revista Científica, n. 52, e10678, 2020. DOI: 10.5585/eccos.n52.10678.
- SELWYN, Neil. Should Robots Replace Teachers? AI and the Future of Education. Cambridge: Polity Press, 2019.
- SELWYN, Neil; PANGRAZIO, Luci. Critical Data Literacies. Cambridge, MA: MIT Press, 2023.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. BNCC Computação em 2026: o que muda, e quem decidiu que era prioridade. Revista NEXO, v. 1, e0012, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). BNCC Computação em 2026: o que muda, e quem decidiu que era prioridade. Revista NEXO, 1, Article e0012.
