A fábula que ninguém avisou que era fábula
Coleção Estômago · Trilha 1 · Módulo 0
Resumo
Por que um filme de 2007 sobre um cozinheiro preso ainda é uma das histórias mais afiadas do cinema brasileiro sobre poder.
Palavras-chave: Estômago; Marcos Jorge; João Miguel; cinema brasileiro; Raimundo Nonato.
A fábula, segundo o próprio filme
A frase que a produção usou para vender Estômago em 2007 já entrega o essencial: "uma fábula nada infantil sobre poder". Não é bem uma sinopse, é um aviso. O filme de Marcos Jorge conta a história de Raimundo Nonato (João Miguel), um migrante nordestino que chega à cidade grande sem nada além de fome e talento. Ele aprende a cozinhar trabalhando num boteco, é notado por um dono de restaurante italiano e sobe rápido demais para alguém sem rede de proteção. Ao mesmo tempo, numa outra linha do tempo que se cruza com essa ao longo de todo o filme, Nonato está preso, e sobe de novo, dessa vez dentro da hierarquia de uma cadeia.
Duas ascensões, um só personagem
O corte entre presente (a cadeia) e passado (o restaurante) não é um truque de estrutura gratuito. Ele existe para mostrar a mesma pessoa repetindo o mesmo movimento em dois lugares que deveriam ser opostos, a sociedade livre e a prisão, e descobrindo que as regras de poder são praticamente as mesmas nos dois. Quem cozinha bem, come primeiro. Quem cozinha bem, manda. Isso vale tanto no restaurante onde Nonato trabalha quanto na cadeia onde cumpre pena.
Por que essa trilha existe
Estômago tem quase vinte anos, ganhou dezenas de prêmios no Brasil e fora dele, e já foi comparado a *Ratatouille* por conta do tema da culinária e a *Como Era Gostoso o Meu Francês* por conta do que acontece no final (mais sobre isso no módulo 8). Mesmo assim, é um filme pouco discutido fora de círculos de cinefilia. Esta trilha existe pra reunir num só lugar o que normalmente fica espalhado: bastidores de produção, entrevistas, leitura crítica, os artigos acadêmicos já escritos sobre o filme, e uma conexão que quase ninguém faz entre o final da história e um dos movimentos mais importantes da cultura brasileira. Cada módulo responde a uma pergunta específica que quem assiste ao filme costuma fazer depois. Este primeiro é o mais simples: do que se trata o filme, afinal.
Ficha técnica rápida
Direção de Marcos Jorge, em seu primeiro longa de ficção. Elenco principal com João Miguel, Fabíula Nascimento como Íria, Babu Santana como Bujiú e Carlo Briani como Giovanni. Coprodução Brasil-Itália (o módulo 2 conta essa história), rodado inteiramente em Curitiba em cinco semanas, incluindo cenas dentro de um presídio de verdade (módulo 4). Lançado em 2007, o filme levou o prêmio de melhor filme, entre outros, no Festival do Rio daquele ano, e no ano seguinte no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e no Prêmio Guarani.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. A fábula que ninguém avisou que era fábula. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). A fábula que ninguém avisou que era fábula. Revista NEXO, .
