O diferencial NEXO, a Antropofagia
Coleção Estômago · Trilha 1 · Módulo 8
Resumo
O final canibal de Estômago dialoga com o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. Quase ninguém faz essa conexão.
Palavras-chave: Antropofagia; Oswald de Andrade; Manifesto Antropófago; Como Era Gostoso o Meu Francês; Cinema Novo.
Uma conexão que quase ninguém faz
Resenhas, vídeos de curiosidades, fóruns de fã, quase nenhum desses lugares menciona o que este módulo vai explicar. A única referência acadêmica encontrada que trata diretamente do assunto é um artigo sobre a fotografia do filme, publicado pela Universidade Federal de Goiás, e mesmo esse texto trata o tema de passagem. Fora dos círculos de pesquisa em cinema, essa leitura simplesmente não circula. É o diferencial que esta trilha se propõe a trazer pra frente.
O Manifesto Antropófago, rapidamente
Em 1928, o escritor modernista Oswald de Andrade publica o Manifesto Antropófago, um dos textos fundadores do modernismo brasileiro. A ideia central, resumida na frase "só a antropofagia nos une", propõe que a cultura brasileira se constrói devorando influências estrangeiras (a cultura europeia, sobretudo) e as transformando em algo novo, brasileiro, através de um processo de digestão simbólica. O próprio nome do manifesto vem de um relato histórico real: o dos tupinambás, povo indígena que praticava um ritual antropofágico como parte de sua cultura, e que serve de metáfora pra todo o conceito.
Como Era Gostoso o Meu Francês
Décadas depois, o Cinema Novo leva essa ideia literalmente pra tela em *Como Era Gostoso o Meu Francês* (1971), de Nelson Pereira dos Santos, filme que reconstrói de forma quase documental o ritual antropofágico de um grupo tupinambá que devora um colonizador francês. É um filme que a crítica de cinema brasileira já associa de forma consolidada ao Manifesto de Oswald de Andrade, e que qualquer curso de cinema nacional cita quando o assunto é antropofagia como conceito estético.
Onde Estômago entra nessa história
A cena final de Estômago, com Nonato matando e comendo parte do corpo de Íria (módulo 7 detalha essa cena), reencena esse mesmo gesto fundador da cultura brasileira, só que rebaixado ao registro mais banal possível: não é mais um ritual coletivo carregado de sentido histórico, é um crime passional dentro de uma cozinha de bairro. Um artigo acadêmico da Universidade Federal de Goiás, dedicado à fotografia do filme, chega a descrever a cena final como um momento em que o filme "deglute culturas, mastiga artes, rumina ideias", numa referência direta ao vocabulário do próprio Manifesto Antropófago.
Por que essa leitura importa
Ler o final de Estômago só como crime passional, ou só como metáfora de ambição descontrolada, deixa de fora uma camada inteira de significado. O filme pega a ideia mais célebre e mais séria da cultura brasileira sobre como identidade nacional se constrói (devorar o outro pra virar algo novo) e a aplica a um triângulo amoroso de cozinha, sem nenhuma grandiosidade histórica. A crítica de classe do filme, nesse sentido, não passa pelos olhos nem pelo faro. Ela passa pela boca, e o filme leva essa ideia até o osso, literalmente.
Uma metáfora fundadora, levada ao limite
Esse rebaixamento não diminui o filme, pelo contrário. Ele mostra como um conceito nascido pra pensar grandes questões de identidade nacional pode reaparecer, quase 80 anos depois, dentro da história mais íntima e mais sórdida possível, um cozinheiro, uma prostituta e um patrão traindo um ao outro por dinheiro e desejo. Se a antropofagia de Oswald de Andrade é sobre digerir o estrangeiro pra criar algo brasileiro, Estômago mostra o que sobra desse gesto quando ele perde toda grandiosidade: só o apetite, e o que ele é capaz de fazer com quem se ama.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. O diferencial NEXO, a Antropofagia. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). O diferencial NEXO, a Antropofagia. Revista NEXO, .
