O semiporão
Coleção Parasita · Trilha 1 · Módulo 3
Resumo
O banjiha coreano, a moradia real por trás do apartamento da família Kim em Parasita.
Palavras-chave: Parasita; banjiha; semiporão; moradia; Coreia do Sul.
O que é um semiporão
Banjiha, em coreano, é o termo para esse tipo específico de moradia: metade abaixo do nível da rua, metade acima. A parte de cima costuma ter uma faixa estreita de janela, na altura do chão da calçada, a única fonte de luz natural do cômodo. É onde a família Kim mora no filme inteiro.
O semiporão existe de verdade
Sim, e não é raro. Segundo reportagem consolidada de imprensa internacional, mais de 36 mil famílias vivem em banjihas reais só na Grande Seul. Muitos desses imóveis foram construídos nos anos 1970, durante um período de tensão militar, com a exigência de que novos prédios tivessem porões reforçados, pensados como abrigos antiaéreos em caso de ataque. Só depois, com a expansão urbana e a crise de moradia, esses porões foram sendo progressivamente convertidos em imóveis residenciais, muitas vezes precários, geralmente ocupados por quem não consegue pagar aluguel em andares mais altos.
O que a família vê pela janela
O filme abre literalmente nessa janela. O primeiro plano de Parasita mostra pernas passando na altura da rua, vistas de dentro do semiporão dos Kim. É a moldura visual que define a posição da família no espaço, e na hierarquia social, antes mesmo de qualquer diálogo começar. Eles não olham a cidade de frente, olham a cidade de baixo, na altura dos pés de quem passa.
A cena do wifi
Logo no início, os dois filhos mais velhos, Ki-woo e Ki-jung, sobem em cima do vaso sanitário tentando capturar um sinal de internet de algum vizinho, depois que a rede que usavam de graça é bloqueada. É uma cena cômica à primeira vista, mas estabelece de forma direta um tipo de precariedade que vai se repetir ao longo do filme: a família depende, o tempo todo, de recursos que não são propriamente seus.
A cena da fumigação
Pouco depois, um caminhão passa pela rua espalhando inseticida contra insetos. Em vez de fechar a janela para se proteger, a família decide deixá-la aberta, para conseguir uma "dedetização grátis" contra os insetos que já infestam o próprio apartamento. A cena é engraçada e desconfortável ao mesmo tempo, e conecta diretamente o espaço da família ao próprio título do filme: eles vivem lado a lado com os insetos que dão nome ao gisaengchung, o parasita.
Por que entra água no apartamento
O apartamento fica literalmente abaixo do nível da rua, então, quando a chuva forte cai mais tarde no filme, a água escoa morro abaixo e se acumula justamente ali, no ponto mais baixo do bairro. A cena da família descendo correndo de volta pra casa está no módulo das escadas, e o que a enchente revela dentro do próprio apartamento, incluindo a pedra reaparecendo na água, está no módulo Marx e a mercadoria. Ainda não existe um módulo dedicado inteiramente à chuva e à enchente como eixo próprio, isso ficou pendente do seu levantamento original.
O que o semiporão representa
Mais do que cenário de pobreza, o semiporão é um argumento espacial sobre invisibilidade. A família vive num ponto da cidade de onde só se vê pernas passando, e de onde ninguém em cima consegue ver para baixo. É uma posição que resume, antes de qualquer palavra ser dita, a relação entre quem está em cima e quem está embaixo que organiza o filme inteiro.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. O semiporão. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). O semiporão. Revista NEXO, .
