O cheiro
Coleção Parasita · Trilha 1 · Módulo 6
Resumo
O único símbolo de classe em Parasita que a família Kim não consegue esconder nem manipular.
Palavras-chave: Parasita; cheiro; classe social; simbolismo.
Por que o cheiro é importante em Parasita
De todos os símbolos do filme, o cheiro é talvez o mais cruel, porque é o único que a família Kim não consegue esconder nem manipular. Diplomas podem ser falsificados, currículos podem ser forjados, mas o cheiro do lugar onde alguém mora gruda na pele e na roupa, e ninguém escolhe onde nasce.
O artigo de Farahbakhsh e Ebrahimi, publicado em 2021 no CINEJ Cinema Journal (DOI: 10.5195/cinej.2021.291), já catalogado na bibliografia desta trilha, trata o cheiro como uma das metáforas centrais e recorrentes do filme, ao lado da pedra, dos insetos e da festa.
Quem percebe o cheiro primeiro
A primeira pessoa a notar que os quatro membros da família Kim têm o mesmo cheiro é Da-song, o filho caçula dos Park, uma criança de cinco anos. Ele exclama, sem nenhum filtro social, que eles "cheiram exatamente igual" (roteiro, página 58, segundo levantamento do LSE Undergraduate Political Review). É uma escolha de roteiro deliberada: fazer a criança mais nova da casa ser a primeira a captar, de forma instintiva, uma diferença de classe que os adultos ao redor dela ainda não verbalizaram.
A frase do rabanete e do pano fervido
Mais tarde, é Dong-ik quem nomeia o problema em voz alta, para a própria esposa, comparando o cheiro de Ki-taek a rabanete velho, ou ao cheiro de um pano sendo fervido. A comparação não é gratuita: são cheiros associados a pobreza, a comida modesta, a coisas fervidas e reaproveitadas. Dong-ik e Yeon-kyo chegam a nomear diretamente um "cheiro de gente pobre" (roteiro, página 101) infiltrando a própria casa, que ele tenta descrever como um "aroma sutil".
Por que o cheiro não sai nem lavando roupa
Em determinado momento do filme, é a própria Ki-jung quem reconhece, para a família, que aquele cheiro é do semiporão onde moram, e que nenhum produto de limpeza vai tirá-lo. É provavelmente a linha mais dura do filme sobre esse símbolo específico, porque desloca o cheiro de "falta de higiene pessoal" (algo que se resolveria com um banho) para "condição estrutural do lugar onde se mora" (algo que nenhum esforço individual resolve). O cheiro para de ser sobre a pessoa e passa a ser sobre a casa, sobre a cidade, sobre a posição que aquela família ocupa dentro dela.
Por que o gesto de tapar o nariz mata alguém
O cheiro atravessa o filme inteiro até o clímax. É o gesto de Dong-ik tapando o nariz diante do corpo de Geun-se, um gesto de nojo automático, quase incontrolável, que Ki-taek testemunha, que dispara o assassinato. Não é a violência de Geun-se, nem a traição descoberta, nem a humilhação anterior que faz Ki-taek matar Dong-ik. É esse gesto específico, o nojo do cheiro repetido uma última vez, no pior momento possível, que faz a paciência acumulada ao longo de todo o filme finalmente se romper.
Cheiro como crítica social
O que torna esse símbolo particularmente eficaz é que ele não depende de nenhuma ação da família Kim. Eles não fazem nada de errado para ter aquele cheiro, moram onde conseguem morar, e é exatamente por isso que o cheiro funciona como crítica social: mostra uma marca de classe que nenhum esforço individual apaga, porque não nasce de nenhuma escolha individual para começar.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. O cheiro. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). O cheiro. Revista NEXO, .
