Marx e a mercadoria
Coleção Parasita · Trilha 1 · Módulo 7
Resumo
A pedra que abre o filme como mercadoria fetichizada, uma leitura marxista de Parasita.
Palavras-chave: Parasita; Karl Marx; fetichismo da mercadoria; O Capital; pedra.
O conceito, em poucas linhas
Toda mercadoria carrega duas dimensões ao mesmo tempo, segundo Marx: **valor de uso** (a utilidade concreta do objeto) e **valor de troca** (quanto ele vale em relação a outras mercadorias, seu preço). O problema começa quando essas duas dimensões deixam de parecer o que são, um efeito das relações sociais de produção, e passam a parecer uma propriedade natural do próprio objeto. Marx chama esse efeito de **fetichismo da mercadoria**, descrito em *O Capital*, Livro I.
Se você quer entender esse conceito com profundidade, com a genealogia completa dele em Marx e todos os desdobramentos, esse é exatamente o assunto do Módulo 4 da nossa trilha [O Capital, a anatomia da mercadoria](https://www.nexoconhecimento.com.br/trilhas/o-capital-comentado), "O fetichismo, ou por que a marca vale mais que o trabalho". Este capítulo parte do princípio de que você já domina o conceito, ou está disposto a ir buscá-lo lá, e foca no que é específico deste filme: como Parasita ilustra esse conceito na prática, cena por cena.
A pedra de Parasita como mercadoria fetichizada
O objeto mais óbvio para pensar isso no filme é a pedra ornamental que Min entrega para a família Kim logo no início, o "scholar's rock". Ela chega carregada de uma lenda: quem a possui atrai prosperidade material. Repare no que acontece aqui. A pedra não tem nenhum valor de uso real. Ela não serve para cozinhar, não protege ninguém da chuva, não resolve o problema de dinheiro da família. E, ainda assim, ela é tratada como se tivesse um poder próprio, quase mágico, de transformar a vida de quem a possui.
É exatamente esse mecanismo que Marx descreve como fetichismo: um objeto comum recebendo, aos olhos de quem o possui, uma espécie de força independente da relação social que realmente o produz (nesse caso, a relação de amizade e classe entre Min e Ki-woo, e a expectativa de ascensão social por trás do presente). A pesquisadora Shatabdi Mishra, num artigo publicado no Global Media Journal em 2022, descreve esse efeito como uma "qualidade quase fantasmagórica" atribuída a um objeto inanimado, a formulação mais direta que existe hoje, em pesquisa acadêmica confirmada, sobre esse ponto específico do filme.
Por que a pedra não serve para nada, e por que isso importa
Se você já assistiu ao filme, sabe que a pedra reaparece várias vezes, sempre em mãos diferentes, sempre carregada do mesmo significado de aspiração. Chung-sook chega a passar a mão nela, num gesto quase de reverência, o mesmo tipo de gesto que se faria diante de um objeto de valor real. Mas o filme nunca deixa a pedra fazer nada de concreto pela família. Ela não paga uma conta, não resolve o problema do WiFi, não impede a enchente que destrói o apartamento deles.
É esse contraste, entre o poder simbólico enorme que a pedra carrega e sua inutilidade prática completa, que faz dela o exemplo perfeito de mercadoria fetichizada. O valor que ela tem não vem de nada que ela faça. Vem inteiramente da crença que se deposita nela.
Marcas e objetos importados, o fetiche fora da pedra
A pedra não é o único objeto do filme funcionando dessa forma. A casa dos Park está cheia de referências ocidentais, de marcas e nomes que aparecem não pela função que cumprem, mas pelo prestígio que carregam. Um walkie-talkie, um Mercedes-Benz, referências a lugares como Illinois e Chicago. Nenhum desses elementos precisa estar ali pela utilidade. Eles estão ali porque significam algo, porque colocam a família Park dentro de um determinado imaginário de classe.
O próprio Ki-woo, ao se infiltrar na casa como tutor, adota o nome "Kevin". Sua irmã vira "Jessica". A americanização do nome funciona no mesmo registro simbólico dos objetos importados da casa dos Park: um valor que não vem de nenhuma utilidade concreta, mas do que aquele nome, aquela marca, aquele objeto representa dentro de um sistema de status.
O trabalho da família Kim como mercadoria
Aqui entra a segunda metade do conceito, e é onde o filme fica mais desconfortável. Se objetos podem ser fetichizados, o mesmo mecanismo pode se estender ao próprio trabalho humano. Para Marx, sob o capitalismo, a força de trabalho de uma pessoa também se torna uma mercadoria: algo que se vende, se compra, se substitui.
É exatamente isso que acontece com os quatro membros da família Kim. Ao se infiltrarem na casa dos Park como tutor, motorista, governanta e terapeuta de arte, eles não estão sendo reconhecidos como pessoas com uma relação humana direta com a família que os emprega. Eles estão sendo contratados por uma função, uma etiqueta de serviço que pode, a qualquer momento, ser substituída por outra pessoa que cumpra o mesmo papel, como de fato acontece com o motorista e a governanta anteriores, demitidos sem cerimônia assim que deixam de ser convenientes.
O próprio esforço da família para parecer qualificada (os diplomas falsificados, os currículos forjados) é, nesse sentido, um esforço para tornar sua força de trabalho mais vendável, mais parecida com uma mercadoria de qualidade dentro de um mercado que não tem nenhum interesse em quem eles realmente são.
Por que a pedra volta como arma no final
O momento mais forte dessa leitura acontece no clímax do filme. A mesma pedra que abre a história como símbolo de prosperidade termina sendo usada por Geun-se como arma contra Ki-woo. É a mesma pedra, o mesmo objeto físico, mas sua função social muda completamente.
Essa virada não é só um golpe de roteiro. Ela marca o momento em que a ilusão do fetiche se rompe. Enquanto a pedra era só uma promessa de riqueza futura, ela podia continuar sendo admirada, guardada, tocada com reverência. No momento em que a violência real da disputa entre as duas famílias explode, o objeto perde sua aura simbólica e volta a ser apenas aquilo que sempre foi fisicamente: uma pedra pesada, capaz de ferir. A relação social de exploração e exclusão que estava escondida atrás do fetiche volta à superfície, e o objeto que a escondia se torna, literalmente, a arma que a revela.
O que Marx explica sobre Parasita
Juntando essas peças, o filme oferece um caso de estudo bastante completo do que Marx chama de fetichismo da mercadoria: um objeto sem valor de uso real recebendo um valor simbólico quase mágico (a pedra), esse mesmo mecanismo se repetindo em marcas e produtos importados dentro da casa dos ricos, e a extensão desse fetichismo ao próprio trabalho humano, com a família Kim tratada, e se tratando, como força de trabalho intercambiável dentro de um sistema que não reconhece nada além da função que cada um cumpre.
Não é a única leitura possível do filme, e não precisa ser a única usada nesta trilha. Mas é uma leitura sustentada por pesquisa acadêmica publicada (Mishra, S. "A Marxist Analysis of Class Consciousness in Bong Joon-ho's Parasite". Global Media Journal, 2022, DOI: 10.36648/1550-7521.20.51.308) e construída inteiramente a partir de um único autor, sem precisar recorrer a nenhum outro teórico para funcionar.
Para aprofundar, a trilha O Capital
Este capítulo mostrou o conceito em ação dentro de Parasita. Se você quer entender de onde ele vem, como Marx chega à ideia de fetichismo da mercadoria a partir da análise do próprio valor, e como esse conceito se conecta com o restante da Seção 1 de *O Capital*, a leitura completa está na nossa trilha [O Capital, a anatomia da mercadoria](https://www.nexoconhecimento.com.br/trilhas/o-capital-comentado), especialmente o Módulo 4, dedicado inteiramente ao fetichismo.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. Marx e a mercadoria. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). Marx e a mercadoria. Revista NEXO, .
