Como ele alfabetizava
O que não contam sobre Paulo Freire · Módulo 2
Não começava com a letra, começava com a conversa
Antes de qualquer aula formal, os educadores do método Freire faziam um levantamento: conversas informais com a comunidade, pra descobrir que palavras aquelas pessoas já usavam no dia a dia. Dali saíam entre 18 e 23 palavras geradoras, escolhidas por dois critérios simultâneos, não um ou outro. Precisavam conter os principais padrões silábicos da língua portuguesa, pra dar conta tecnicamente do processo de alfabetização, e precisavam ser carregadas de significado social pra aquele grupo específico.
Em Angicos, no Rio Grande do Norte, a primeira palavra geradora usada, em 28 de janeiro de 1963, foi "belota", fruto do carvalho, referência ao trabalho de coleta de sementes na região. Não era um exemplo genérico de cartilha. Era uma palavra que aquela turma específica já usava.
A palavra virava duas coisas ao mesmo tempo
Cada palavra geradora cumpria duas funções. A técnica: era quebrada em sílabas, e a partir das famílias silábicas as pessoas aprendiam a formar palavras novas, o processo que Freire chamava de codificação e decodificação. A política: a palavra virava tema de discussão em grupo, nos Círculos de Cultura, não salas de aula tradicionais, e sim rodas onde o educador não "dava aula" no sentido hierárquico do termo, era mediador entre iguais.
Freire chamaria isso, anos depois, de recusa à educação bancária: a ideia de que o professor deposita conhecimento num aluno passivo, como quem deposita dinheiro num banco (FREIRE, 1987). Em Angicos, antes mesmo de escrever essa formulação teórica, ele já praticava a alternativa: ninguém ali era recipiente vazio.
Três etapas, um objetivo
O processo tinha uma lógica de três etapas. Investigação: levantar, junto com a comunidade, o vocabulário que já fazia parte da vida dela. Tematização: discutir o que aquelas palavras significavam socialmente, o que "aluguel" ou "salário" representavam pra quem estava ali. Problematização: questionar criticamente a realidade que aquelas palavras revelavam, não aceitar o mundo como dado.
O objetivo final Freire chamava de conscientização: a pessoa aprender a ler a palavra e o mundo ao mesmo tempo. Alfabetizar, pra ele, não podia se limitar a decodificar letras.
300 pessoas, 40 horas, um recorde que virou notícia internacional
Em Angicos, 380 pessoas começaram o processo em 18 de janeiro de 1963. Ao final das 40 horas de aula, concluídas em 2 de abril, com a presença do presidente João Goulart e de governadores do Nordeste, cerca de 300 alunos foram considerados alfabetizados: 70% de aproveitamento no teste de alfabetização, 87% no teste de politização. A repercussão foi tanta que o experimento virou notícia no New York Times, na Time, no Herald Tribune, no Sunday Times e no Le Monde.
Foi esse resultado, replicável e documentado, que convenceu o governo federal a tentar escalar o método pro Brasil inteiro. É essa história que o próximo módulo conta, e é exatamente aí que a coisa desanda.
Referências
- FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
- INSTITUTO PAULO FREIRE. Cronologia — Angicos 50 Anos. Disponível em: https://angicos50anos.paulofreire.org/en/cronologia/. Acesso em: 23 jul. 2026.
- TRIBUNA DO NORTE. Linha do tempo das 40 horas de Angicos. Disponível em: https://tribunadonorte.com.br/natal/linha-do-tempo-das-40-horas-de-angicos/. Acesso em: 23 jul. 2026.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. Como ele alfabetizava. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). Como ele alfabetizava. Revista NEXO, .