
Chico Buarque, 1971. O jogo de palavras, o operário sem nome e a engrenagem por baixo da canção.
Coleção · Músicas que explicam o mundo
Por que 1971, e por que este disco é diferente de tudo que Chico tinha feito até ali?
Em 1971, Chico Buarque volta ao Brasil depois de mais de um ano vivendo em Roma, um exílio que ele mesmo escolheu fazer antes de ser expulso de vez do país. Ele sai de um Brasil ainda duro e volta para um Brasil pior. Em dezembro de 1968 tinha saído o Ato Institucional número 5, que fechou o Congresso, suspendeu o habeas corpus e deu ao regime militar poder para prender, censurar e torturar sem prestar contas a ninguém. Enquanto Chico estava fora, Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos e depois mandados para o exílio em Londres. Voltar, em 1971, era voltar para o auge da repressão.
O Ato Institucional número 5 foi editado em 13 de dezembro de 1968 pelo presidente Costa e Silva, o mais duro entre os atos institucionais da ditadura militar brasileira. Ele fechou o Congresso Nacional por quase dez meses, de dezembro de 1968 a outubro de 1969, e derrubou na prática as garantias que ainda restavam da Constituição de 1967.
Na prática, o AI-5 deu ao regime poder para suspender direitos políticos de qualquer cidadão por até dez anos, cassar mandatos de deputados e senadores, decretar estado de sítio sem precisar de aprovação do Congresso e demitir ou aposentar compulsoriamente juízes, militares e funcionários públicos, retirando garantias como a vitaliciedade e a estabilidade no cargo. Suspendeu também o habeas corpus para acusados de crimes políticos, o que abriu caminho legal para prisões sem julgamento e sem prazo definido.
O ato não tinha prazo de validade e vigorou até ser revogado pela Emenda Constitucional número 11, de 1978, em vigor a partir de janeiro de 1979. O período que ele inaugura, marcado pelo aumento da censura, da tortura e das mortes de opositores do regime, é o que ficou conhecido como os anos de chumbo.
É desse retorno que nasce o álbum Construção. Não é um disco sobre exílio, nem sobre saudade, embora as duas coisas atravessem quase tudo o que Chico escreveu na época. É um disco sobre o país que ele encontrou ao voltar: as cidades que cresciam verticalmente sem cuidar de quem construía, o trabalho que virava número, a vida que virava rotina até a morte não interromper mais nada.
Até ali, Chico já era uma das maiores vozes da MPB, autor de canções de amor e de crítica social ligeira, uma espécie de herdeiro natural da bossa nova. Construção marca uma virada. A canção título do disco é o momento em que ele deixa de compor sobre o Brasil e passa a compor o Brasil, com uma ambição de forma que nenhuma canção brasileira tinha tentado antes: contar a vida e a morte de um homem comum usando uma estrutura de linguagem tão rígida quanto a rotina que ela descreve.
O disco todo caminha nessa direção. Outras faixas, como Deus lhe Pague e Cotidiano, também giram em torno da repetição, do trabalho e da sujeição, mas é em Construção que a forma e o conteúdo se fundem por completo: uma canção sobre um operário que repete o mesmo dia até morrer, escrita em versos que repetem a mesma estrutura até o fim.
Um artista muda de registro quando o país muda ao redor dele. O que, na sua própria vida, já fez você olhar para as mesmas coisas de um jeito diferente de uma hora para outra?

O truque que faz os mesmos versos contarem duas histórias diferentes. Por que o operário da letra não tem nome. O que Rogério Duprat fez por baixo da melodia quase parada. A ironia de um jornalista de direita citando o nome do presidente da ditadura como exemplo de palavra esdrújula. Cada módulo abre uma camada da canção mais bem avaliada da música popular brasileira.
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