A nossa escrevivência não pode ser lida como histórias para ninar os da casa-grande, e sim para incomodá-los em seus sonos injustos.Conceição Evaristo
É um conceito criado pela escritora Conceição Evaristo. A palavra junta escrever e viver, e recusa a ideia de que a literatura seria um exercício neutro, distante de quem a produz.
A escrevivência nomeia uma escrita que nasce da experiência vivida e da memória, individual e coletiva, do povo negro. Ela inverte uma longa tradição em que a população negra foi escrita de fora, como personagem do olhar alheio. Aqui, quem foi narrado passa a narrar.
De objeto a sujeito da escrita
Por séculos, a literatura falou sobre a população negra sem deixá-la falar. A escrevivência vira a página: a vida comum das mulheres negras, o trabalho, a fé, a dor e a alegria entram na escrita pela mão de quem as viveu, não pela imaginação de quem as observava de longe.
Escrever para incomodar, não para ninar
Evaristo é precisa sobre o objetivo: essa escrita não serve para acalmar a consciência de quem oprime, mas para incomodar. A escrevivência não pede licença nem busca aprovação. Ela ocupa, registra e cobra.
Kehinde e Um Defeito de Cor
A escrevivência é a chave para ler obras como Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves: uma vida negra narrada em primeira pessoa, por dentro. Dialoga com a amefricanidade de Lélia Gonzalez e com o feminismo negro de bell hooks e Angela Davis.
Cunhou o conceito para nomear a escrita que nasce da vivência e da memória do povo negro.
Lélia Gonzalez reposiciona quem tem direito de produzir teoria; Evaristo, quem tem direito de narrar.
A saga de Kehinde, narrada em primeira pessoa, é escrevivência levada às últimas consequências.
Entender a escrevivência é entender que quem narra decide o que importa. Devolver a caneta a quem foi sempre escrito de fora muda não só a literatura, mas a própria memória do país.
Identidade e Memória.
.jpg)