Saviani é o principal nome da teoria pedagógica crítica de origem marxista no Brasil. Sua formulação da PHC oferece ao professor uma saída ao dilema de ensinar conteúdo sem reproduzir a ideologia dominante: transmitir o saber elaborado de forma dialética, partindo da prática social do aluno, avançando para a teoria e retornando à prática transformada. O NEXO articula essa perspectiva nos artigos sobre os paradigmas da educação e nos verbetes sobre os conceitos que estruturam o debate pedagógico brasileiro.Por que importa
Contribuições ao pensamento
Pedagogia Histórico-Crítica
A PHC parte do materialismo histórico para afirmar que a escola tem uma função específica e insubstituível: transmitir o saber elaborado produzido historicamente pela humanidade. Ao contrário das pedagogias que partem apenas do cotidiano do aluno, a PHC defende que a mediação do professor e o acesso ao conhecimento científico sistematizado são condições de emancipação, não de reprodução.
Crítica ao esvaziamento da escola pública
Saviani mostrou que o escolanovismo, ao deslocar o centro do processo educativo do conhecimento para o método, produziu paradoxalmente um empobrecimento da escola pública. Enquanto as escolas privadas continuavam ensinando conteúdo com rigor, as públicas se enchiam de atividades sem substância. A crítica é precisa: a negação do conteúdo é um privilégio que os pobres não podem se dar.
O conceito de saber elaborado
Para Saviani, a especificidade da escola está em dar acesso ao saber elaborado: o conhecimento científico, artístico e filosófico que a humanidade construiu ao longo da história e que não está disponível na experiência cotidiana. É exatamente esse saber que a classe trabalhadora não acessa fora da escola, e é por isso que negá-lo à escola pública é um ato político de exclusão.
A face oculta da lua
Saviani formulou uma imagem precisa para a tarefa da escola: seu papel não é mostrar a face visível da lua, isto é, reiterar o cotidiano, mas mostrar a face oculta, revelar os aspectos essenciais das relações sociais que se ocultam sob os fenômenos que se mostram à percepção imediata. A escola existe para tornar visível o que a ideologia esconde.
História da educação brasileira
Além da teoria pedagógica, Saviani dedicou décadas ao estudo histórico da educação no Brasil, desde o período jesuítico até as reformas contemporâneas. Sua obra historiográfica rastreia a disputa permanente entre projetos de escola que refletem interesses de classe, e ajuda a compreender por que as reformas educacionais raramente alteram a desigualdade que deveriam combater.
Saviani constrói sua teoria num Brasil marcado por duas tensões simultâneas. A primeira é política: a ditadura militar (1964-1985) controlava o currículo escolar e reprimia as pedagogias críticas, enquanto a redemocratização colocava em disputa o projeto de escola pública. A segunda é teórica: o escolanovismo havia penetrado a formação de professores como discurso progressista, mas, ao centrar tudo no processo e no aluno, havia deslocado a atenção do conteúdo, produzindo o que Saviani chamava de esvaziamento da escola para os pobres. A PHC é uma resposta a essas duas tensões. Contra a escola tecnicista do regime, afirma que o conhecimento tem dimensão política. Contra o espontaneismo escolanovista, afirma que o professor tem papel insubstituível na mediação do saber. Saviani herda de Gramsci a ideia de que o acesso da classe trabalhadora ao conhecimento elaborado é condição de hegemonia, e de Vygotsky a compreensão de que o desenvolvimento humano é histórico e mediado. Sua síntese tenta responder a uma pergunta que o Brasil ainda não respondeu: o que a escola pública deve ensinar para ser, ao mesmo tempo, democrática e rigorosa?
Uma vida em camadas
Os mesmos anos lidos em três alturas: o mundo, o campo de ideias e a própria trajetória.
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Recebidas
Externas
- Georg Wilhelm Friedrich Hegel
- Friedrich Engels
- Paschoal Lemme
- Anísio Teixeira
Biografia(expandir)
Dermeval Saviani nasceu em Campinas, São Paulo, em 1943. Formou-se em filosofia pela PUC-SP, onde também fez mestrado e doutorado. Construiu sua trajetória acadêmica entre a Unicamp e a PUC-Campinas, tornando-se um dos pesquisadores em educação mais influentes do Brasil. É professor emérito da Unicamp e membro da Academia Brasileira de Educação.
Sua contribuição central é a formulação da Pedagogia Histórico-Crítica, elaborada a partir dos anos 1970, num contexto de ditadura militar e de disputa teórica sobre os rumos da educação brasileira. A PHC se distingue tanto das pedagogias tradicionais, que reproduzem o saber da classe dominante sem mediação crítica, quanto das pedagogias escolanovistas, que em nome da centralidade do aluno esvaziavam o papel do conhecimento científico sistematizado.
Saviani parte de Marx para afirmar que a educação é determinada pela estrutura social, mas não de forma mecânica: ela pode ser um instrumento de transformação se operar conscientemente contra a reprodução da ideologia dominante. Para isso, a escola precisa transmitir, com rigor, o patrimônio cultural e científico produzido historicamente pela humanidade, o que Saviani chama de saber elaborado, aquele que o estudante das classes trabalhadoras não acessa fora da escola.
Além da PHC, Saviani dedicou parte significativa de sua obra à história da educação brasileira, investigando as políticas educacionais desde o período colonial. 'Escola e Democracia' (1983) e 'Pedagogia Histórico-Crítica' (1991) são suas obras de referência mais lidas. Aposentado formalmente, continua ativo na pesquisa e na orientação de doutorandos.
- SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia, Autores Associados, 1983.
- SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações, Autores Associados, 1991.
- SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia. 43. ed., Autores Associados, 2008.
- BACZINSKI, Alexandra Vanessa de Moura. A implantação oficial da Pedagogia histórico-crítica na rede pública do Paraná, Paideia: Revista Científica de Educação, 2009.
Autoras relacionadas
Dermeval Saviani, no Atlas vivo do NEXO.