A última visão de pós-capitalismo do velho Marx, nos anos 1880, foi além do ecossocialismo e se caracteriza melhor como comunismo do decrescimento.Kohei Saito · Marx in the Anthropocene (Cambridge, 2023) · tradução própria do NEXO
Se Foster mostrou que Marx pensava a natureza, Saito foi aos cadernos científicos inéditos do velho Marx e encontrou algo ainda mais radical do que se imaginava.
Saito venceu o Prêmio Deutscher com a tese de que a ecologia está no coração do Marx maduro. Lendo os manuscritos publicados na MEGA, a edição completa de Marx e Engels, ele reconstrói o conceito de ruptura metabólica e sustenta que, no fim da vida, Marx caminhava para uma crítica ao próprio crescimento. É a base do que ele chama, em obra posterior, de comunismo do decrescimento.
O Marx que quase ninguém tinha lido
Boa parte da ecologia de Marx ficou escondida em cadernos de estudo sobre química, agronomia e geologia, nunca publicados em vida. Saito mergulha nesse material e mostra um pensador atento ao esgotamento do solo e aos limites naturais, longe do produtivismo que muitos lhe atribuíram.
Só voltando aos próprios textos de Marx é possível oferecer uma visão positiva de futuro para o Antropoceno.Kohei Saito · Marx in the Anthropocene (Cambridge, 2023) · tradução própria do NEXO
Comunismo do decrescimento
A conclusão de Saito é ousada: o velho Marx teria rompido com a ideia de progresso ilimitado e apontado para uma economia de estado estacionário, igualitária e sustentável. Não decrescimento como austeridade, mas como mudança de critério, do quantitativo ao qualitativo, do lucro à vida.
Uma leitura corajosa e em disputa
O NEXO apresenta a tese e o debate. A ideia de uma virada ecológica e decrescentista no fim da vida de Marx é poderosa, mas contestada por quem vê mais continuidade do que ruptura. Reconhecer a controvérsia faz parte de estudar Saito a sério.
Foster recuperou a ruptura metabólica; Saito leva o argumento aos cadernos inéditos e às últimas conclusões de Marx.
Uma sociedade pós-capitalista que abandona o crescimento infinito e organiza a produção pela necessidade e pelo equilíbrio ecológico.
A edição completa de Marx e Engels, com os cadernos científicos que tornaram possível essa releitura ecológica.
Saito reabre Marx para o século da crise climática. Seja como interpretação definitiva ou como provocação fértil, o comunismo do decrescimento já mudou os termos do debate ecossocialista.
Trilha Ecossocialismo.
