Por que o Brasil precisa negar o racismo para continuar funcionando?
Democracia racial, denegação e “neurose cultural brasileira” como mecanismos psíquicos e históricos de manutenção da desigualdade
Resumo
Este artigo examina a hipótese de que a negação do racismo, no Brasil, não deve ser entendida como simples desconhecimento ou falha de informação, mas como um mecanismo histórico, social e psíquico que contribui para a manutenção das desigualdades raciais. Por meio de revisão bibliográfica de caráter interpretativo, articulam-se contribuições da antropologia (Lévi-Strauss, Munanga, Schwarcz), da história social das ideias raciais (Skidmore, Dávila, Maio), da sociologia das relações raciais (Fernandes, Hasenbalg, Guimarães, Telles) e da psicanálise e da psicologia social brasileiras (Gonzalez, Souza, Nogueira, Bento, Schucman). Argumenta-se que a passagem da ciência das raças ao ideal de branqueamento e, depois, ao mito da democracia racial produziu um discurso nacional em que reconhecer o racismo equivaleria a abalar a imagem de harmonia sobre a qual a nação se narra. A noção de denegação, retomada por Lélia Gonzalez na formulação da “neurose cultural brasileira”, e a de pacto narcísico da branquitude permitem compreender por que a negação persiste mesmo diante de evidências empíricas. Discutem-se, ainda, seus efeitos na escola, na saúde mental e na própria Psicologia, bem como novas formas de negação, como o daltonismo racial e a inversão da acusação. Conclui-se que enfrentar o racismo exige não apenas informar, mas deslocar os investimentos psíquicos e materiais que sustentam seu silenciamento.
Palavras-chave: Racismo; Denegação; Democracia racial; Branquitude; Psicologia.
Resumen
Este artículo examina la hipótesis de que la negación del racismo en Brasil no debe entenderse como simple desconocimiento o falta de información, sino como un mecanismo histórico, social y psíquico que contribuye al mantenimiento de las desigualdades raciales. Mediante una revisión bibliográfica de carácter interpretativo, se articulan aportes de la antropología, de la historia social de las ideas raciales, de la sociología de las relaciones raciales y del psicoanálisis y la psicología social brasileños. Se argumenta que el paso de la ciencia de las razas al ideal de blanqueamiento y, después, al mito de la democracia racial produjo un discurso nacional en el que reconocer el racismo equivaldría a socavar la imagen de armonía con la que la nación se narra. La noción de denegación (*Verneinung*), retomada por Lélia Gonzalez en su formulación de la «neurosis cultural brasileña», y la de pacto narcisista de la blanquitud permiten comprender por qué la negación persiste aun frente a evidencias empíricas. Se discuten también sus efectos en la escuela, en la salud mental y en la propia Psicología, así como nuevas formas de negación, como el daltonismo racial y la inversión de la acusación. Se concluye que enfrentar el racismo exige no solo informar, sino desplazar las inversiones psíquicas y materiales que sostienen su silenciamiento.
Palabras clave: Racismo; Denegación; Democracia racial; Blanquitud; Psicología.
Neste artigo
- 1 Introdução
- 2 Percurso metodológico
- 3 Raça como ficção com efeitos reais: contribuições da antropologia
- 3.1 O desmonte do conceito biológico de raça
- 3.2 Racialização e a construção do “não-ser”
- 4 Da ciência das raças ao branqueamento: a gênese histórica da negação
- 4.1 O racismo científico e o dilema da mestiçagem
- 4.2 O ideal de branqueamento
- 5 Da democracia racial ao mito: a negação como projeto de nação
- 5.1 Freyre e a imagem de harmonia
- 5.2 O Projeto UNESCO e a crítica sociológica
- 5.3 A denúncia negra e a disputa pela nação
- 5.4 Mérito, classe e a naturalização da desigualdade
- 6 Denegação: a leitura psicanalítica e a “neurose cultural brasileira”
- 6.1 A negação em Freud
- 6.2 Da negação individual à negação coletiva
- 6.3 Lélia Gonzalez e o sintoma nacional
- 6.4 Culpa, vergonha e responsabilidade
- 7 O pacto da branquitude e a função psíquica da negação
- 7.1 A branquitude como lugar de poder
- 7.2 Efeitos sobre a subjetividade negra
- 7.3 Raça, gênero e classe: a posição da mulher negra
- 8 A negação no cotidiano institucional: escola, saúde mental e psicologia
- 8.1 Infância e escola
- 8.2 Saúde mental
- 8.3 A Psicologia diante de si mesma
- 8.4 Implicações para a formação e a prática profissional
- 9 Novas formas de negação e limites da tese
- 9.1 O que mudou e o que permanece
- 9.2 Limites da tese
- 10 Considerações finais
- Onde a negação aparece hoje, e o que fazer com ela
1 Introdução
Poucos países produziram, ao longo de sua história, uma imagem de si tão associada à convivência harmoniosa entre diferentes grupos raciais quanto o Brasil. Em manuais escolares, discursos políticos, campanhas publicitárias e conversas cotidianas, a mistura de povos aparece como traço de identidade nacional e, não raro, como motivo de orgulho. Ao mesmo tempo, o país foi o último das Américas a abolir a escravidão, em 1888, e convive, até hoje, com desigualdades de renda, escolaridade, moradia, saúde e exposição à violência que se distribuem de modo marcadamente racializado (HASENBALG, 1979; TELLES, 2003). Pessoas que se declaram pretas ou pardas correspondem a pouco mais da metade da população (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2023), o que torna ainda mais notável a dificuldade de reconhecer o racismo como problema central da vida nacional. O contraste entre a imagem de harmonia e a realidade da desigualdade é o ponto de partida deste artigo.
A pergunta que orienta o texto é deliberadamente incômoda: por que o Brasil precisa negar o racismo para continuar funcionando? O verbo “precisar” tem aqui sentido interpretativo. Não há um sujeito nacional que decida, de forma consciente e articulada, esconder a desigualdade. A hipótese é que a negação cumpre funções políticas, econômicas, simbólicas e psíquicas que, ao longo do tempo, tornaram-se parte da própria engrenagem que organiza as relações sociais no país. Se isso é verdadeiro, a negação do racismo deixa de ser uma lacuna de conhecimento a preencher com mais informação e passa a ser um dispositivo ativo, que se renova quando ameaçado.
Esse deslocamento tem consequências para a Psicologia. Durante muito tempo, a área tratou o preconceito como atitude individual, passível de correção por educação ou por contato entre grupos, e deixou de interrogar o lugar da raça na própria constituição dos sujeitos e das instituições que os acolhem. Autoras brasileiras como Neusa Santos Souza (1983), Lélia Gonzalez (1984), Isildinha Baptista Nogueira (2021) e Maria Aparecida Silva Bento, a Cida Bento (2002; 2022) mostraram que o racismo afeta a formação da subjetividade tanto de pessoas negras quanto de pessoas brancas, ainda que de maneiras radicalmente distintas. Compreender a negação é, portanto, compreender um dos modos pelos quais a sociedade brasileira organiza o que pode e o que não pode ser dito, sentido e lembrado.
O objetivo geral é analisar a negação do racismo no Brasil como mecanismo histórico e psíquico de manutenção das desigualdades raciais. Como objetivos específicos, busca-se: (a) examinar o estatuto da raça como construção social à luz da antropologia; (b) reconstituir historicamente a passagem da ciência das raças ao branqueamentoIdeia de que a mistura entre brancos e não brancos e a imigração europeia clareariam a população, o que seria desejável. e à democracia racialImagem do Brasil como país sem barreiras raciais. A sociologia a chamou de mito, porque escondia a desigualdade.; (c) discutir a denegaçãoQuando algo recalcado aparece na fala em forma de negativa (“não é minha mãe”). Reconhece-se o conteúdo sem aceitá-lo. e a “neurose cultural brasileiraExpressão de Lélia Gonzalez: o racismo seria o sintoma de uma cultura que celebra o que é negro e encobre a violência racial. É imagem teórica, não diagnóstico.” como chaves de leitura psicanalítica; (d) analisar o pacto narcísicoAcordo tácito de proteção entre pessoas brancas, que preserva privilégios e uma imagem positiva do grupo. Termo de Cida Bento. da branquitudeLugar de poder em que a pessoa branca se vê como o padrão de ser humano e não percebe que ocupa uma posição racial.; e (e) identificar manifestações atuais da negação, com atenção à escola, à saúde mental e à própria Psicologia.
A contribuição específica deste ensaio consiste em analisar a negação do racismo a partir da articulação entre três dimensões que, embora relacionadas, não são equivalentes: a formação histórica dos discursos nacionais sobre raça, os mecanismos psíquicos mobilizados diante do reconhecimento do racismo e a reprodução de privilégios associados à branquitude. Essas dimensões são distintas entre si, e é a análise conjunta que permite compreender diferentes aspectos da persistência da negação. A história evidencia as condições em que determinados discursos se constituíram; a psicanálise oferece recursos interpretativos para examinar as defesas e os conflitos implicados no reconhecimento da violência racial; e os estudos da branquitude permitem investigar como o silenciamento pode contribuir para a preservação de posições de poder e de vantagens sociais.
Essa articulação busca avançar para além de uma compreensão da negação como simples desconhecimento, preconceito individual ou permanência de um mito nacional. Quando examinada apenas como falta de informação, a negação tende a ser tratada como um problema solucionável pela transmissão de conhecimentos. Quando reduzida a uma atitude individual, corre-se o risco de ignorar as condições históricas e institucionais que favorecem sua reprodução. Por outro lado, uma explicação exclusivamente estrutural pode deixar em segundo plano os conflitos subjetivos e as respostas defensivas que atravessam as relações cotidianas. A hipótese desenvolvida neste trabalho é que a persistência da negação se torna mais inteligível quando se consideram conjuntamente suas condições históricas, suas expressões discursivas, seus efeitos subjetivos e suas funções na manutenção de privilégios.
A originalidade pretendida está na leitura interpretativa que coloca em diálogo as contribuições desses autores. Essa leitura permite examinar como a imagem de uma nação racialmente harmoniosa pode ser historicamente produzida, subjetivamente protegida e socialmente reproduzida, mesmo diante de desigualdades persistentes. Ao aproximar essas dimensões, o ensaio também desloca a questão para o campo da Psicologia: em vez de investigar somente como o preconceito se manifesta em indivíduos, propõe-se refletir sobre como os sujeitos são constituídos em relações sociais racializadas e como práticas profissionais e instituições psicológicas podem, consciente ou inadvertidamente, reproduzir ou questionar os mecanismos de silenciamento.
A exposição segue a ordem dos objetivos específicos. Após o percurso metodológico, discute-se a raça como ficção com efeitos reais; em seguida, a gênese histórica da negação e o mito da democracia racial; depois, a leitura psicanalítica da denegação e o pacto da branquitude; por fim, os desdobramentos institucionais, as novas formas de negação e os limites da tese. As considerações finais retomam a pergunta inicial.
2 Percurso metodológico
Trata-se de um ensaio teóricoTexto que constrói um argumento a partir da leitura e da interpretação de outros autores, sem coletar dados novos. Os resultados são hipóteses de leitura, não medições., entendido aqui conforme Meneghetti (2011) como forma de produção de conhecimento que se apoia na reflexão e na interpretação de quem escreve, e não na verificação empírica de hipóteses. A abordagem é qualitativa, nos termos de Minayo (2014), que a associa ao universo dos significados, motivos, crenças e valores que compõem a realidade social. O procedimento é a revisão bibliográfica narrativa que, segundo Rother (2007), é ampla, baseia-se na análise crítica e na interpretação da literatura feitas pelo autor e não parte de critérios sistemáticos de busca. Por isso mesmo, o recorte não procura esgotar a literatura sobre relações raciais no Brasil, que é vasta: seleciona obras que, em campos distintos, oferecem ferramentas para pensar a negação. Foram reunidos textos clássicos e contemporâneos da antropologia, da história social, da sociologia e da psicanálise e psicologia social, privilegiando-se autoras e autores brasileiros e negros, cuja produção foi historicamente marginalizada nos currículos de formação.
A escolha por um ensaio interdisciplinar decorre do próprio objeto. A negação do racismo não pertence a um único campo: tem raízes históricas, expressa-se em discursos e instituições e se sustenta em dinâmicas psíquicas. Examiná-la apenas pelo viés psicológico correria o risco de individualizá-la; examiná-la apenas pelo viés histórico ou sociológico, de ignorar os modos pelos quais ela é vivida e reproduzida na intimidade das relações. A articulação entre esses planos, ainda que sempre parcial, é a aposta metodológica do trabalho.
Utiliza-se o termo “raça” em sentido sociológico e político, e não biológico, conforme a tradição que será discutida na próxima seção. Os termos “população negra” e “pessoas negras” referem-se ao conjunto de pessoas que se declaram pretas e pardas, seguindo a classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.² Por fim, reconhece-se o limite de um texto que reúne muitos autores em poucas páginas: as sínteses aqui apresentadas são necessariamente seletivas e convidam à leitura direta das obras.
² A designação “população negra”, que reúne pessoas pretas e pardas, é consagrada na literatura sobre relações raciais e se fundamenta na constatação de que ambos os grupos enfrentam, em graus distintos, desvantagens sociais em relação à população branca (HASENBALG, 1979; TELLES, 2003).
3 Raça como ficção com efeitos reais: contribuições da antropologia
3.1 O desmonte do conceito biológico de raça
A ideia de que a humanidade se divide em raças biologicamente distintas e hierarquizadas foi uma das construções mais influentes do pensamento ocidental entre os séculos XVIII e XX. Ela serviu para justificar a escravização, a colonização e, mais tarde, políticas de exclusão e de extermínio. A antropologia, que em seus primórdios participou ativamente da classificação dos povos, foi também o campo que, ao longo do século XX, contribuiu de modo decisivo para desmontar essa noção. Em texto elaborado para a UNESCO, Lévi-Strauss (1952) argumenta que as diferenças entre culturas não podem ser ordenadas em uma escala de superioridade e inferioridade, e que o etnocentrismoTendência de tomar os próprios costumes como medida para julgar os dos outros. É a base da ideia de povos “mais” ou “menos” evoluídos., isto é, a tendência de tomar os próprios costumes como medida universal, está na raiz da ideia de que existiriam povos mais ou menos “evoluídos”.
Para Lévi-Strauss (1952), a diversidade cultural nasce do contato entre sociedades, que trocam, tomam emprestado e transformam saberes e técnicas. Essa perspectiva desloca o foco: as diferenças de trajetória histórica entre povos se explicam pelas condições históricas, geográficas e políticas de seus encontros, e não por um suposto fundamento biológico. A conclusão, que o consenso científico posterior confirmou, é que a espécie humana é demasiadamente próxima para sustentar subdivisões biológicas com valor explicativo sobre capacidades morais ou intelectuais.
Desmontar a raça biológica, contudo, não equivale a desfazer a raça social. Munanga (1999) insiste que o conceito de raça, embora cientificamente inválido, continua operando como categoria de classificação e de hierarquização nas relações sociais. É por meio dele que os corpos são lidos, que oportunidades são distribuídas e que identidades são atribuídas ou recusadas. A raça, nessa chave, é uma construção ideológica cujos efeitos são concretos. Almeida (2019) acrescenta que a raça atravessa a política, a economia e o direito, e que o racismo não se reduz a comportamentos individuais: ele estrutura as instituições, que reproduzem a desigualdade ainda que seus membros não tenham intenção discriminatória.
3.2 Racialização e a construção do “não-ser”
A filosofia e a teoria social negras ajudam a entender por que uma ficção persiste. Mbembe (2018) mostra que a figura do “Negro” foi inventada pelo Ocidente no contexto do tráfico atlântico e da colonização, como modo de designar aquele cujo corpo e cuja força de trabalho podiam ser apropriados. Fanon (2008), por sua vez, descreve a experiência de ser fixado por um olhar que reduz a pessoa à aparência corporal, em um esquema que ele chama de epidérmico racial, no qual o sujeito negro é obrigado a se ver pelos olhos do outro. Para o autor, o racismo vai além de um conjunto de ideias falsas sobre pessoas negras: organiza uma zona de não-ser, em que o reconhecimento pleno da humanidade é sistematicamente negado.
Sueli Carneiro (2005) desenvolve essa ideia no contexto brasileiro com a noção de dispositivo de racialidade, inspirada em Foucault. Para a autora, a racialidade funciona como um conjunto de saberes, práticas e instituições que constrói o outro como não-ser e, ao mesmo tempo, consolida o ser branco como parâmetro de humanidade. A esse processo associa-se o epistemicídioDesqualificação sistemática dos saberes de um grupo e de sua capacidade de produzir conhecimento. Conceito de Sueli Carneiro., isto é, a desqualificação sistemática dos saberes e da capacidade de produção de conhecimento das pessoas negras. A consequência é dupla: de um lado, a hierarquia racial é naturalizada; de outro, a própria possibilidade de nomeá-la é minada, já que quem poderia denunciá-la tem sua credibilidade posta em questão.
Essa ficção com efeitos reais tem uma consequência importante para o argumento deste artigo. Se a raça é construída socialmente, também o é a negação de seus efeitos. Isso significa que tanto o racismo quanto o silêncio sobre o racismo são produzidos historicamente, em condições determinadas, e, portanto, podem ser compreendidos e transformados. É a esse trabalho de reconstituição que se dedica a seção seguinte.
4 Da ciência das raças ao branqueamento: a gênese histórica da negação
4.1 O racismo científico e o dilema da mestiçagem
Para compreender como a negação do racismo se tornou parte da vida nacional, é preciso voltar ao período em que o Brasil se via diante de um dilema. Em 1888, a abolição da escravidão colocou a necessidade de pensar um país formado por uma população majoritariamente negra e mestiça em um contexto internacional no qual as teorias raciais europeias sustentavam que a mistura de raças levaria à degeneração. Schwarcz (1993) mostra que, entre as décadas de 1870 e 1930, instituições como museus etnográficos, faculdades de direito e de medicina e institutos históricos e geográficos acolheram e adaptaram essas teorias, produzindo um pensamento racial próprio, que oscilava entre o pessimismo diante da mestiçagem e a esperança de que ela pudesse, com o tempo, clarear a população.
Nina Rodrigues (1894/1957), médico da Faculdade de Medicina da Bahia, defendeu que as diferentes raças possuíam graus distintos de desenvolvimento e que, por isso, deveriam ser tratadas de maneira desigual pela lei penal. Sua obra é exemplo claro de como a medicina e o direito brasileiros, no final do século XIX, mobilizaram a autoridade da ciência para legitimar a hierarquia racial. O dado interessa ao argumento deste artigo: naquele momento o racismo não era algo a ser negado, e sim formulado abertamente, em linguagem científica, como fundamento de políticas públicas.
A negação aparece, portanto, em um segundo momento. À medida que o racismo científico perdia legitimidade internacional, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial e o impacto do nazismo, e à medida que a elite brasileira buscava uma identidade nacional que não a condenasse ao atraso, tornou-se necessário reformular o discurso. A hierarquia, antes declarada, passou a ser silenciada, e a mestiçagem, antes vista como problema, foi reinterpretada como solução.
4.2 O ideal de branqueamento
Skidmore (1976) descreve a ideologia do branqueamento como a crença de que, pelo cruzamento entre brancos e não brancos e pela entrada de imigrantes europeus, a população brasileira se tornaria progressivamente mais clara, e que isso seria desejável. A tese foi defendida por parte importante da elite intelectual e política do período. Em 1911, o diretor do Museu Nacional, João Batista de Lacerda, apresentou no Congresso Universal das Raças, em Londres, a previsão de que, em cerca de um século, a população negra do Brasil desapareceria por efeito da mestiçagem e da imigração europeia.³ A previsão se mostrou equivocada, mas revela o horizonte em que o país se pensava: a nação branca como destino desejado.
³ A referência ao congresso e à previsão de Lacerda aparece em Schwarcz (1993) e em Skidmore (1976), que discutem seu contexto e sua recepção. A projeção costuma ser lembrada com referência ao ano de 2012.
O branqueamento não foi apenas uma ideia; materializou-se em políticas. O incentivo à imigração europeia, em detrimento da incorporação da população negra recém-liberta ao mercado de trabalho, é um exemplo central (SKIDMORE, 1976). Dávila (2006) analisa como, nos campos da educação e da saúde públicas entre 1917 e 1945, intelectuais e gestores mobilizaram ideias raciais e eugênicas para orientar a política educacional e a maneira de pensar a infância, associando escolarização, higiene e melhoramento social a um projeto de branqueamento. Essa dimensão é particularmente significativa para quem estuda Psicologia e educação: a criança foi um dos principais alvos desse projeto.
Com o branqueamento, produz-se um primeiro mecanismo de negação. Se a população tende a se tornar branca, o racismo é um problema transitório; se a mestiçagem é o futuro, a existência de discriminação no presente é uma exceção a ser superada com o tempo. Munanga (1999) argumenta que a ideologia da mestiçagem, ao dissolver as fronteiras raciais no plano simbólico, dificultou a construção de uma identidade negra e de uma mobilização política baseada na raça, já que apelava ao pertencimento a uma nação supostamente sem divisões. Essa é uma das origens do que mais tarde se chamaria democracia racial.
5 Da democracia racial ao mito: a negação como projeto de nação
5.1 Freyre e a imagem de harmonia
A transição do branqueamento para a celebração da mestiçagem encontrou em Gilberto Freyre uma de suas formulações mais influentes. Em Casa-grande & senzala, Freyre (1933) reinterpretou a formação da sociedade brasileira a partir da convivência entre portugueses, indígenas e africanos, valorizando a contribuição cultural dos povos não europeus e rejeitando a tese da degeneração pela mistura. Em um contexto em que a mestiçagem era vista por muitos como sinal de atraso, a inversão de valor proposta pelo autor teve forte impacto e deu à elite intelectual um argumento para pensar o país de modo positivo.
Os críticos de Freyre não negam seu mérito ao deslocar a discussão do plano biológico para o cultural. O problema, apontado por diversos autores, está no modo como a obra tende a suavizar a violência da escravidão, associando as relações entre senhores e escravizados à intimidade, à miscigenação e à plasticidade cultural, e deixando em segundo plano a coerção, a exploração e a violência sexual que as sustentavam (GONZALEZ, 1984; NASCIMENTO, 1978). Essa leitura forneceu, nas décadas seguintes, os elementos para a ideia de que o Brasil seria um país livre de preconceito racial, uma suposta democracia racial (GUIMARÃES, 1999).
5.2 O Projeto UNESCO e a crítica sociológica
A imagem de harmonia racial chamou a atenção da comunidade internacional. No início da década de 1950, após os horrores do nazismo, a UNESCO patrocinou uma série de pesquisas no Brasil, com a expectativa de encontrar um modelo de convivência racial que pudesse servir de exemplo ao mundo. Como mostra Maio (1999), os resultados frustraram essa expectativa: os estudos de Roger Bastide, Florestan Fernandes e de outros pesquisadores revelaram a existência de preconceito, discriminação e profundas desigualdades entre brancos e negros.
Bastide e Fernandes (1959) observaram, em São Paulo, que o preconceito racial era frequentemente negado e que, em muitos casos, havia o que chamaram de preconceito de ter preconceito: as pessoas reconheciam que o racismo existia, mas sentiam-se constrangidas em admiti-lo em si mesmas, o que levava a expressões veladas e à atribuição do preconceito a terceiros. Fernandes (1965), em seguida, sustentou que a democracia racial era um mito, no sentido de que ocultava a desigualdade real e dispensava os grupos dominantes de assumir responsabilidade pela exclusão da população negra no pós-abolição.
Essa crítica sociológica mostra que a negação é mais que um erro de percepção: cumpre uma função na economia política do pós-abolição. Ao afirmar que não há racismo, dispensam-se o Estado e as elites de políticas de reparação e transfere-se à própria população negra a responsabilidade por suas posições desfavoráveis, interpretadas como falta de esforço ou de qualificação. Hasenbalg (1979) acrescenta que a desigualdade racial no Brasil não pode ser entendida como mero resquício da escravidão, que se dissiparia com a modernização, pois é continuamente reproduzida por mecanismos atuais de discriminação, que operam no mercado de trabalho, na escola e nas relações sociais.
5.3 A denúncia negra e a disputa pela nação
É importante lembrar que a negação nunca foi consensual. Desde as primeiras décadas do século XX, organizações negras, como a Frente Negra Brasileira, fundada em 1931, e o Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias do Nascimento em 1944, denunciaram a discriminação e disputaram os sentidos da nação. Em 1978, Nascimento (1978) publicou O genocídio do negro brasileiro, em que descreve o racismo brasileiro como um processo mascarado, sustentado justamente pela ideia de harmonia. No mesmo ano nasceu o Movimento Negro Unificado, que passou a reivindicar a denúncia pública do racismo como estratégia política. A negação, assim, deve ser compreendida em relação dialética com a denúncia: é na tensão entre ambas que se organiza o debate racial brasileiro.
5.4 Mérito, classe e a naturalização da desigualdade
Um dos desdobramentos mais duradouros do mito da democracia racial é a associação entre ausência de racismo e crença no mérito individual. Se não há barreiras raciais, as posições sociais ocupadas por cada pessoa seriam resultado de talento e esforço, e as diferenças observadas entre grupos teriam de ser explicadas por características dos próprios grupos. Hasenbalg (1979) sugere, ao contrário, que a desigualdade racial no Brasil se mantém mesmo quando se comparam pessoas de origens sociais semelhantes, o que indica que a discriminação opera em momentos específicos da trajetória, como o acesso à escolarização, ao emprego e à promoção.
O argumento de classe, frequentemente mobilizado para dissolver a questão racial, tem fundamento parcial e uso problemático. É inegável que o racismo e a desigualdade de classe se entrelaçam no Brasil, e que a população negra está sobrerrepresentada entre os mais pobres. Mas a conclusão de que a raça seria um epifenômeno da classe ignora que, como sugerem Hasenbalg (1979) e Telles (2003), a cor continua a produzir efeitos sobre as oportunidades para além da origem social. Reduzir o racismo à classe é, assim, uma forma de negação interpretativa: reconhece-se a desigualdade, mas recusa-se seu significado racial.
A psicanálise permite acrescentar uma camada a essa discussão. A crença no mérito tem também função narcísica: ela autoriza as pessoas que ocupam posições privilegiadas a pensar que as merecem e retira da consciência a parte do privilégio que decorre de vantagens herdadas e da discriminação alheia (BENTO, 2022). Para as pessoas negras, a mesma crença pode ter efeito de culpabilização: se o êxito depende apenas de esforço, o fracasso torna-se responsabilidade pessoal. Souza (1983) descreve como a ascensão social de pessoas negras, longe de resolver o conflito racial, pode intensificá-lo, ao exigir adesão a padrões brancos de comportamento e de aparência como condição de aceitação.
6 Denegação: a leitura psicanalítica e a “neurose cultural brasileira”
6.1 A negação em Freud
A psicanálise oferece uma linguagem para pensar por que uma sociedade pode saber e não saber, ao mesmo tempo, que o racismo existe. Em texto de 1925 sobre a negação, Freud (1925/2011) observa que um conteúdo recalcado pode chegar à consciência desde que seja enunciado em forma negativa: o paciente que, diante de uma figura que surgiu em seu sonho, afirma que “não é a minha mãe” revela, ao negar, justamente aquilo de que se trata. A negação, nesse sentido, permite que o conteúdo seja reconhecido no plano intelectual enquanto o recalcamentoNa psicanálise, o ato de manter fora da consciência um conteúdo que causa desconforto. Ele continua agindo, mesmo sem ser lembrado., no plano afetivo, é mantido.⁴
⁴ Na tradução brasileira das obras completas, o termo alemão Verneinung é vertido por “negação”, ao passo que a tradição psicanalítica francesa e muitos autores brasileiros preferem “denegação” (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001). Distingue-se, ainda, da recusa (Verleugnung), mecanismo associado à não aceitação de uma percepção da realidade. Neste artigo, “negação” e “denegação” são empregadas com o sentido freudiano de Verneinung, salvo quando indicado, e “negação” designa também, em sentido amplo, o ato social de recusar a existência de algo.
Essa formulação é fecunda para o tema do racismo porque descreve um modo de saber que não implica aceitação. Frases como “não sou racista, mas”, “aqui ninguém liga para cor” ou “racismo é coisa de americano” enunciam, ao mesmo tempo, o reconhecimento de que o racismo existe e a recusa de assumir seu lugar na própria vida e no próprio país. A negação, portanto, supõe um saber que precisa ser mantido a distância.
6.2 Da negação individual à negação coletiva
A sociologia de Stanley Cohen (2001) permite transpor essa dinâmica do plano individual para o coletivo. O autor distingue formas de negação: a literal, em que se afirma que os fatos não ocorreram; a interpretativa, em que os fatos são admitidos, mas reinterpretados de modo a diminuir seu significado; e a implicativa, em que os fatos e seu significado são admitidos, mas as consequências morais e políticas são evitadas. Cohen mostra que, em sociedades inteiras, é possível saber e não saber ao mesmo tempo, mediante pactos tácitos de silêncio, nos quais muitos sabem e ninguém fala.
A aproximação entre Freud e Cohen exige, contudo, uma distinção conceitual. Em Freud (1925/2011), a negação é examinada no contexto do funcionamento psíquico individual: um conteúdo pode alcançar a consciência sob a forma de uma negativa, sem que isso implique a superação do conflito que o mantém afastado. Cohen (2001), por sua vez, investiga formas de negação presentes na vida social, nas quais fatos e sofrimentos podem ser ignorados, reinterpretados ou reconhecidos sem que suas implicações sejam efetivamente assumidas. Embora ambos permitam problematizar a distância entre reconhecer algo e aceitar suas consequências, seus objetos e níveis de análise não são idênticos. A negação social não pode ser deduzida diretamente do mecanismo psíquico descrito por Freud, nem toda recusa pública de reconhecer o racismo deve ser interpretada como manifestação de um processo inconsciente.
A relação entre essas abordagens é, portanto, interpretativa, e não uma equivalência conceitual. Freud contribui para compreender como o reconhecimento intelectual pode coexistir com uma resistência afetiva; Cohen permite examinar como a recusa, a minimização e o silenciamento se organizam em discursos e práticas coletivas. No caso brasileiro, essa distinção ajuda a analisar situações em que o racismo é reconhecido abstratamente como um problema social, mas suas manifestações concretas são relativizadas ou suas consequências políticas são recusadas. Nesses casos, a distância entre saber e reconhecer não precisa ser explicada exclusivamente por uma defesa inconsciente: ela também pode envolver interesses, normas sociais, disputas de interpretação e relações de poder.
Essa diferenciação impede que a psicanálise seja utilizada como explicação totalizante para fenômenos históricos e políticos. O recurso ao conceito freudiano não significa afirmar que o Brasil, enquanto nação, possua um aparelho psíquico equivalente ao de um indivíduo. Significa investigar, com as devidas ressalvas, como processos subjetivos podem participar da reprodução de discursos socialmente disponíveis e como esses discursos, por sua vez, oferecem condições para determinadas formas de defesa, identificação e recusa. A contribuição da articulação interdisciplinar está justamente em preservar as diferenças entre os níveis de análise, ao mesmo tempo que investiga suas possíveis conexões.
As três formas aparecem no debate brasileiro. A negação literal está em afirmações de que não há racismo no país; a interpretativa, na redução de episódios de discriminação a “desentendimentos”, “brincadeiras” ou “questões de classe”; e a implicativa, na admissão genérica de que “o racismo existe” acompanhada da recusa de qualquer medida que redistribua poder e recursos. Essa tipologia ajuda a perceber que a negação do racismo pode conviver com declarações públicas de repúdio, sem que isso altere as práticas.
6.3 Lélia Gonzalez e o sintoma nacional
A contribuição mais decisiva para pensar a negação do racismo a partir da psicanálise, no Brasil, é de Lélia Gonzalez. Intelectual, professora e militante dos movimentos negro e de mulheres negras, a autora propôs, em Racismo e sexismo na cultura brasileira, publicado em 1984, que o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira (GONZALEZ, 1984). A expressão funciona como recurso teórico, e não como diagnóstico patologizante de um povo: assim como o neurótico produz sintomas que ocultam e revelam um conflito inconsciente, a cultura brasileira produziria, por meio do mito da democracia racial, formas de encobrir e, ao mesmo tempo, de expressar a violência racial que a estrutura.
A aproximação entre a formulação de Gonzalez (1984) e a noção freudiana de negação deve ser compreendida como uma possibilidade de leitura, e não como uma simples transposição do mecanismo clínico para a sociedade. Em Freud, a análise incide sobre a relação do sujeito com um conteúdo psíquico que pode ser reconhecido sem que o conflito subjacente seja elaborado. Em Gonzalez, a reflexão adquire uma dimensão histórica, cultural e política específica: o racismo brasileiro é pensado em relação às formas pelas quais a cultura nacional representa a si mesma, organiza seus silêncios e incorpora contribuições negras enquanto frequentemente desvaloriza os sujeitos que as produzem. Assim, a autora não apenas aplica uma categoria psicanalítica a um objeto coletivo; ela a reinscreve em uma interpretação crítica da formação social brasileira.
Essa diferença importa: a “neurose cultural brasileira” não é diagnóstico clínico de uma população nem prova de que todos os brasileiros compartilham o mesmo conflito psíquico. Sua potência interpretativa está em evidenciar uma contradição cultural: elementos de origem africana são constitutivos da identidade nacional, mas a participação histórica das populações negras e a violência racial que atravessa essa formação podem ser minimizadas ou apagadas. A coexistência entre valorização cultural e desvalorização social não constitui, por si só, evidência de um mecanismo inconsciente; ela ganha sentido analítico quando situada nas relações históricas de exploração, nas hierarquias raciais e nos discursos que naturalizam essas contradições.
Nesse ponto, Gonzalez amplia a pergunta psicanalítica sobre o que é reconhecido e recusado ao situá-la em uma história marcada pela escravidão, pelo racismo e pela construção do ideal de harmonia racial. O que está em questão não é apenas a dificuldade de um sujeito admitir determinada representação, mas a existência de narrativas coletivas que permitem celebrar a mestiçagem e a cultura negra sem necessariamente reconhecer as desigualdades e as relações de poder que atravessam sua produção. A leitura de Gonzalez, portanto, confere especificidade histórica à discussão sobre a negação e impede que o racismo brasileiro seja explicado apenas por conflitos intrapsíquicos ou por atitudes individuais.
Apoiando-se em Lacan, Gonzalez distingue consciência e memória. A consciência seria o lugar do desconhecimento, da exclusão e do encobrimento, em que prevalecem os discursos dominantes e o mito da harmonia; a memória, o lugar das inscrições que a consciência recusa, em que se conservam saberes, histórias e experiências que não cabem no discurso oficial (GONZALEZ, 1984). Daí a ideia de que a cultura brasileira sabe de sua africanidade e de sua violência racial, mas as mantém em um regime de desconhecimento. Esse saber retorna de modo deformado, como sintoma, na cultura popular, na religiosidade, na língua falada, que a autora chamou de pretuguês, na culinária e na música, que são ao mesmo tempo celebradas e desvinculadas das pessoas negras que as produziram.
A autora ilustra o mecanismo com a figura da mulher negra, que ocupa lugares fixos na imaginação nacional: a mulata, exaltada como objeto de desejo durante o Carnaval; a doméstica, encarregada do trabalho cotidiano de cuidado; e a mãe preta, que amamenta e educa os filhos da casa-grande e é lembrada com afeto e condescendência. Em todas elas, o corpo negro é, ao mesmo tempo, requisitado e desvalorizado, celebrado e subordinado. A negação do racismo permite que essas posições sejam vistas como naturais, ou mesmo como sinais de afeto e integração, e não como produtos de uma história de exploração (GONZALEZ, 1984).
O argumento de Gonzalez permite reformular a pergunta que dá título a este artigo. Na leitura de Gonzalez, a negação é sintoma de um conflito, e não um erro que a sociedade comete por distração. Reconhecer o racismo significaria encarar a violência fundadora da nação, os privilégios que dela derivam e a precariedade da imagem de harmonia sobre a qual se constrói a identidade coletiva. A negação, nessa perspectiva, protege a sociedade de uma angústia, e por isso resiste a evidências: o que se defende é uma imagem de si, e não uma crença factual.
6.4 Culpa, vergonha e responsabilidade
Resta perguntar o que torna a negação tão difícil de abandonar. Parte da resposta está na associação, frequente entre pessoas brancas, entre reconhecer o racismo e sentir-se acusada de ser racista. A tensão se agrava quando o debate público trata o racismo como falha moral individual: qualquer menção ao tema passa a ameaçar a própria imagem. Nessas condições, a negação funciona como defesa contra a culpa e a vergonha, afetos desagradáveis que mobilizam respostas defensivas, como a irritação, a minimização e a mudança de assunto.
Uma distinção ajuda a pensar uma saída. A culpa, entendida como sentimento paralisante de ser mau, tende a produzir fuga; a responsabilidade, entendida como reconhecimento de que se participa de uma estrutura e de que se pode agir sobre ela, abre espaço para a ação. Bento (2002; 2022) sugere que falar de branquitude é convidar pessoas brancas a reconhecer a herança de privilégios e a assumir um papel ativo em sua transformação, sem lhes atribuir culpa individual pelo passado. O deslocamento é difícil: exige tolerar o desconforto sem recorrer à negação e depende de espaços coletivos, educativos e clínicos em que esse trabalho possa ser feito.
7 O pacto da branquitude e a função psíquica da negação
7.1 A branquitude como lugar de poder
Se a negação do racismo protege uma imagem de si, é preciso perguntar quem, concretamente, se beneficia dessa proteção. Os estudos críticos da branquitude, que ganharam força no Brasil a partir dos anos 2000, deslocaram o foco da análise das pessoas negras para o grupo que ocupa a posição de privilégio. Schucman (2014) compreende a branquitude como uma posição de poder em que o sujeito branco se percebe e é percebido como padrão de humanidade, ao qual são associados atributos como beleza, inteligência e competência, e que costuma passar despercebida para quem a ocupa.
Essa invisibilidade é parte do privilégio. Como observa Bento (2002), a categoria raça, no Brasil, tende a ser associada exclusivamente às pessoas negras, enquanto as pessoas brancas se pensam como universais, sem raça. Falar de racismo, assim, parece ser falar do problema do outro. Carone e Bento (2002) reuniram estudos que mostram como a branquitude foi construída historicamente no país, em articulação com o branqueamento, e como ela organiza as relações de poder em espaços como a empresa, a escola e a universidade.
A contribuição central de Bento (2002; 2022) é a noção de pacto narcísico da branquitude. Trata-se de um acordo tácito, não declarado, de proteção mútua entre pessoas brancas, que se expressa na recusa em reconhecer a herança da escravidão como fonte de privilégios, no silêncio diante de práticas discriminatórias, na valorização de pares brancos em processos de seleção e promoção e na projeção sobre o outro de características negativas que o grupo não reconhece em si. O adjetivo narcísico remete à dimensão psíquica: o pacto preserva uma imagem positiva de si e do grupo, ameaçada por qualquer discussão que associe o bem-estar branco à exploração histórica de pessoas negras.
Esse pacto ajuda a explicar um aspecto da negação que a leitura de Gonzalez, centrada no plano cultural, deixa em segundo plano: seu caráter de interesse. A negação funciona como defesa contra a angústia e também como estratégia de preservação de vantagens materiais e simbólicas. O desconforto de reconhecer o racismo vem de que reconhecê-lo implica reconhecer-se parte dele. Mills (1997) propõe, em chave filosófica, uma ideia próxima ao formular o conceito de contrato racial: um conjunto de acordos, formais e informais, que organiza a sociedade em favor de pessoas brancas e que exige, para funcionar, uma epistemologia da ignorânciaForma socialmente produzida de não ver e não saber o que ameaçaria uma ordem vantajosa para quem está no topo. Termo de Charles Mills., isto é, uma maneira socialmente produzida de não ver e de não saber aquilo que ameaçaria a ordem estabelecida.
A aproximação entre Gonzalez (1984) e Bento (2002; 2022) permite distinguir duas dimensões complementares da negação. A formulação de Gonzalez destaca a contradição cultural por meio da qual a sociedade brasileira incorpora referências negras à sua identidade, ao mesmo tempo que encobre a violência racial e desvaloriza a população negra. Bento, ao investigar o pacto narcísico da branquitude, direciona a análise para os mecanismos de identificação, pertencimento e proteção de privilégios que favorecem a continuidade dessa contradição. Enquanto Gonzalez oferece uma interpretação crítica da produção de uma imagem nacional de harmonia, Bento permite perguntar como determinados grupos preservam posições de vantagem e como o silêncio pode participar dessa preservação.
As duas abordagens não devem, entretanto, ser reduzidas a uma única explicação. A negação cultural não se resume a um acordo consciente entre pessoas brancas, assim como o pacto da branquitude não pode ser compreendido apenas como defesa psíquica contra a culpa ou a vergonha. As práticas de manutenção de privilégios podem ocorrer sem planejamento explícito e sem que seus participantes reconheçam plenamente seus efeitos. Ao mesmo tempo, não é suficiente explicar a negação apenas como resistência afetiva: ela pode produzir benefícios concretos, como a manutenção de desigualdades de acesso, reconhecimento e poder. A dimensão subjetiva e a dimensão material se relacionam, mas nenhuma delas substitui a análise da outra.
Essa articulação ajuda a compreender por que a negação pode persistir mesmo quando o discurso público de harmonia racial perde credibilidade. Ela pode assumir formas menos explícitas, nas quais se admite a existência abstrata do racismo, mas se questionam os relatos de discriminação, se rejeitam medidas reparatórias ou se atribui a desigualdade exclusivamente ao mérito individual. Nessas situações, a imagem positiva do grupo e a preservação de vantagens podem se reforçar mutuamente, ainda que não sejam movidas por uma intenção única ou compartilhada por todos os indivíduos. A hipótese deste ensaio é que a análise conjunta de Gonzalez e Bento torna visível essa articulação entre representação nacional, defesa da imagem de si e reprodução de relações de poder, sem pressupor que os dois conceitos tenham o mesmo significado ou alcance.
7.2 Efeitos sobre a subjetividade negra
A negação tem efeitos também sobre a subjetividade das pessoas negras. Neusa Santos Souza (1983), em estudo pioneiro sobre a trajetória de pessoas negras em ascensão social, mostra que ser negro, em uma sociedade que associa a negritude à inferioridade, implica um processo de construção de identidade marcado pela violência. A autora descreve o ideal de ego branco como parâmetro que o sujeito negro é levado a internalizar e que se torna fonte de sofrimento, pois a aproximação com esse ideal exige a negação de si. Tornar-se negro, para Souza, é o processo de construir uma identidade que resista a essa imposição, assumindo uma história e um corpo que a sociedade ensina a rejeitar.
Nogueira (2021), por sua vez, analisa o modo como o corpo negro é investido de significações pela cultura e como o sujeito negro, desde cedo, precisa elaborar o olhar do outro sobre si. A negação coletiva do racismo agrava esse processo: quando o ambiente nega que a discriminação exista, a pessoa que a vivencia enfrenta o sofrimento e, ao mesmo tempo, a descrença na legitimidade de sua percepção. Fanon (2008) descreve, a partir de sua própria experiência, a dor de ser interpelado como objeto e de ter essa vivência desqualificada. Em termos clínicos, isso pode se traduzir em confusão, culpa, desconfiança de si e dificuldade de nomear a violência sofrida.
Há, portanto, um duplo efeito da negação: sobre as pessoas brancas, ela protege a autoimagem e preserva privilégios; sobre as pessoas negras, ela desautoriza a percepção da violência e dificulta sua elaboração. Essa assimetria é central para compreender por que o racismo é tratado, muitas vezes, como exagero ou “vitimismo” de quem o denuncia: o sofrimento de quem fala é deslocado para o desconforto de quem escuta.
7.3 Raça, gênero e classe: a posição da mulher negra
A análise de Gonzalez (1984) também aponta que a negação do racismo não opera de modo uniforme sobre todas as pessoas negras. A autora insiste na articulação entre racismo e sexismo, argumentando que a mulher negra ocupa uma posição de dupla subordinação, agravada pela posição de classe. Isso significa que os efeitos psíquicos da negação variam conforme o lugar social ocupado, e que uma leitura que desconsidere gênero e classe tende a produzir generalizações empobrecedoras sobre a experiência negra.
Esse ponto tem implicações para a clínica e para a pesquisa. Ao escutar uma mulher negra, é preciso estar atento às múltiplas camadas que atravessam seu sofrimento, evitando reduzi-lo a uma única causa. A perspectiva de Gonzalez também lembra que as mulheres negras foram, historicamente, sujeitos de resistência e de produção de saberes, e não apenas objetos da violência racial e sexista. Reconhecer essa agência é parte do trabalho de superar a negação, que tende a apresentar a população negra ora como invisível, ora como vítima passiva.
8 A negação no cotidiano institucional: escola, saúde mental e psicologia
8.1 Infância e escola
A negação do racismo não é um fenômeno abstrato; ela se atualiza nas instituições que organizam o cotidiano. A escola é um dos espaços em que isso se torna mais visível, e a educação infantil, em particular, ajuda a compreender como a negação opera em idades muito precoces. Cavalleiro (2000), em pesquisa realizada em uma escola de educação infantil de São Paulo, observou que as práticas pedagógicas e as interações cotidianas eram atravessadas por tratamentos desiguais entre crianças brancas e negras, ao mesmo tempo em que profissionais da escola sustentavam que não havia preconceito. O silêncio diante do tema, nesse contexto, não era neutro: contribuía para que situações de discriminação não fossem nomeadas, nem pelas crianças que as sofriam, nem por aquelas que as praticavam.
A obra de Cavalleiro mostra que a negação tem uma face pedagógica: ao tratar a diferença racial como assunto que não deve ser mencionado, a escola ensina às crianças que não é legítimo falar do que elas percebem. Esse aprendizado do silêncio é, em si, uma forma de socialização racial. Ele dialoga com a história descrita por Dávila (2006), na qual a escola brasileira foi pensada, desde as primeiras décadas do século XX, como instrumento de modelagem da população e de promoção de ideais de branqueamento. A promulgação da Lei nº 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nos currículos, pode ser lida como tentativa de romper esse pacto de silêncio (BRASIL, 2003), embora sua efetividade dependa de formação docente, de materiais adequados e de compromisso institucional, elementos nem sempre disponíveis.
A leitura de Cavalleiro (2000) permite refletir sobre o que ocorre antes que as crianças disponham de um vocabulário para nomear as diferenças raciais. Em idades muito precoces, a criança aprende pelo corpo, pelo olhar e pelo tom de voz de quem a cuida: quem é acolhido, quem é elogiado, de quem o adulto se aproxima e de quem se afasta. Se os cuidados e as demonstrações de afeto se distribuem de modo desigual, a criança é exposta a mensagens implícitas sobre seu valor, diferentes de ideias explícitas e, por isso mesmo, difíceis de contestar. Do ponto de vista da Psicologia do Desenvolvimento, tais experiências tendem a ser relevantes para a construção da autoimagem e do sentimento de pertencimento, o que exige cautela na formulação de relações causais e estimula a realização de pesquisas específicas sobre o tema.
Nesse contexto, a negação adquire um efeito particularmente grave. Quando a escola afirma que todas as crianças são tratadas igualmente, a criança que percebe tratamento desigual se vê diante de um dilema: ou desconfia de sua própria percepção, ou aceita que a diferença de tratamento é merecida. Em ambos os casos, o silêncio institucional protege a prática discriminatória e desautoriza a experiência da criança. Fanon (2008) e Souza (1983) ajudam a perceber que essa desautorização é parte do processo pelo qual o sujeito negro aprende a ver-se pelos olhos do outro, e que o primeiro espaço de enfrentamento da negação, portanto, é a possibilidade de nomear o que se vive.
8.2 Saúde mental
No campo da saúde mental, a negação do racismo produz efeitos em duas direções. De um lado, dificulta que o sofrimento associado à discriminação seja reconhecido como tal e levado em conta no diagnóstico e no tratamento; de outro, contribui para que as pessoas negras encontrem nos serviços de saúde os mesmos mecanismos de silenciamento que enfrentam em outros espaços. Quando o profissional se sente desconfortável com o tema, ou o considera irrelevante diante do “verdadeiro” problema clínico, repete-se, no consultório ou no serviço, o pacto que se pretendia interrogar.
A literatura psicanalítica brasileira citada neste artigo oferece ao clínico recursos para escutar essa dimensão. Souza (1983) e Nogueira (2021) mostram que a experiência racial atravessa a constituição da imagem corporal, da autoestima e das relações afetivas, e que ela não pode ser reduzida a conflitos familiares ou individuais. Reconhecer essa dimensão exige que o profissional examine também o próprio lugar racial e as defesas que mobiliza diante do tema, o que remete ao trabalho de Bento (2002) sobre os pactos narcísicos.
8.3 A Psicologia diante de si mesma
A própria Psicologia, como ciência e profissão, não está fora do problema. A história da ciência psicológica no mundo ocidental inclui o uso de testes e de classificações que serviram para sustentar hierarquias raciais, e a disciplina demorou a fazer do racismo objeto central de investigação e de formação. No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia publicou, em 2002, a Resolução nº 018, que estabelece normas de atuação para psicólogas e psicólogos em relação ao preconceito e à discriminação racial, determinando que a categoria não deve colaborar com eventos ou serviços de natureza discriminatória (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2002). A existência da norma indica reconhecimento institucional do problema, mas não garante que a formação de novos profissionais inclua, de forma sistemática, a discussão sobre raça e racismo.
Esse cenário reforça a pertinência de uma pergunta dirigida à própria área: o que a Psicologia tem silenciado sobre raça? Se a negação é um mecanismo social amplo, é razoável supor que ela também atravesse currículos, referências teóricas e práticas profissionais. A presença predominante de autores europeus e norte-americanos em muitos currículos de formação, em um país em que pessoas negras são maioria, pode ser lida, a partir do conceito de epistemicídio de Carneiro (2005), como um modo de desqualificar saberes produzidos fora do eixo hegemônico. Trata-se de uma hipótese que merece investigação empírica, mas que ajuda a situar a responsabilidade da área no enfrentamento da negação.
8.4 Implicações para a formação e a prática profissional
As análises anteriores sugerem algumas direções para a formação e a prática em Psicologia, que devem ser entendidas como proposições a serem debatidas e testadas, e não como receitas. A primeira é a inclusão sistemática do tema das relações raciais nos currículos, não como tópico isolado ao final do curso, mas como eixo que atravessa as disciplinas de desenvolvimento, de personalidade, de psicopatologia, de psicologia social e de clínica. Isso implica, também, ampliar o repertório bibliográfico, de modo a incluir autoras e autores como os discutidos neste artigo, cuja obra oferece categorias específicas para pensar a experiência racial no Brasil.
A segunda direção diz respeito ao trabalho sobre si. Se a negação é um mecanismo também psíquico, o profissional não está imune a ela. Espaços de supervisão, de análise pessoal e de grupos de estudo podem favorecer o exame das defesas que se mobilizam diante do tema e do lugar racial que cada profissional ocupa. Bento (2002) enfatiza que o trabalho com a branquitude requer que as pessoas brancas pensem sobre sua própria posição, e não apenas sobre a situação das pessoas negras, o que vale tanto para a formação quanto para a clínica.
A terceira direção é a atuação institucional, em especial nas escolas e nos serviços de saúde e de assistência. A atuação de psicólogas e psicólogos em creches e escolas pode incluir a formação de equipes para a identificação de tratamentos desiguais, a escuta de crianças e famílias e o apoio à implementação de práticas antirracistas, em diálogo com a Lei nº 10.639/2003 (BRASIL, 2003) e com as normas da categoria (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2002). Por fim, destaca-se a necessidade de pesquisas que investiguem empiricamente como a negação se manifesta em diferentes contextos, de modo a evitar que o debate se limite a formulações teóricas.
9 Novas formas de negação e limites da tese
9.1 O que mudou e o que permanece
O reconhecimento público do racismo avançou no Brasil nas últimas décadas. A Constituição de 1988 definiu a prática do racismo como crime inafiançável e imprescritível (BRASIL, 1988); a Lei nº 7.716/1989 tipificou os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor (BRASIL, 1989); a Lei nº 12.711/2012 instituiu reserva de vagas em instituições federais de ensino (BRASIL, 2012a); e o Supremo Tribunal Federal declarou, no mesmo ano, a constitucionalidade das cotas raciais (BRASIL, 2012b). Em 2023, a Lei nº 14.532 equiparou a injúria racial ao crime de racismo (BRASIL, 2023). Esses marcos indicam que o mito da democracia racial perdeu parte de sua hegemonia no plano jurídico e político.
A negação, contudo, não desapareceu: reorganizou-se. Bonilla-Silva (2003), analisando o contexto norte-americano, descreve o racismo daltônicoDiscurso que evita falar de raça e explica a desigualdade por mérito ou escolha, com ar de neutralidade. (color-blind racism), que recusa o vocabulário da raça e explica as desigualdades por meio de argumentos que aparentam neutralidade, como o mérito individual, as escolhas culturais ou a naturalidade das preferências. Embora formulada para outro país, a análise é útil para compreender discursos brasileiros contemporâneos que afirmam que “só existe uma raça, a humana”, que “o problema é de classe” ou que as cotas “racializam” a sociedade e aprofundam divisões. Nessas falas, a premissa antropológica correta, de que a raça biológica não existe, é mobilizada para desqualificar as políticas que buscam enfrentar os efeitos sociais da raça.
Outra forma de negação contemporânea é a inversão: a pessoa que denuncia o racismo passa a ser acusada de produzi-lo. A expressão “racismo reverso”, a insistência em tratar a menção à raça como “divisiva” e a tendência a qualificar relatos de discriminação como “vitimismo” deslocam o foco do problema para quem o nomeia. Em termos da tipologia de Cohen (2001), trata-se de uma negação interpretativa, que retira do racismo seu significado e o transforma em sinônimo de qualquer conflito, o que permite alegar sua existência em todos os grupos e, assim, esvaziar sua dimensão estrutural (ALMEIDA, 2019).
Também se observa uma negação de tipo implicativo na própria condenação do racismo. É comum que casos de ofensas explícitas gerem indignação pública, centrada em indivíduos identificados como “racistas”, enquanto as práticas rotineiras e institucionais seguem sem exame. Almeida (2019) chama atenção para o limite dessa concepção individualista: ao tratar o racismo como desvio moral de pessoas específicas, deixa-se intacta a estrutura que produz desigualdades independentemente da intenção de cada agente. Condenar o “racista” pode, nesse sentido, funcionar como forma de absolvição coletiva: se o racismo é falha de poucos, a maioria permanece imune.
9.2 Limites da tese
A tese apresentada neste artigo exige cautela. A ideia de que a negação “serve” a determinadas funções corre o risco de sugerir uma coordenação consciente de interesses que não corresponde à complexidade dos processos históricos. A negação resulta de múltiplas práticas, nem sempre intencionais, que se reforçam mutuamente. Falar em “neurose cultural” e em “pacto” da branquitude também é recorrer a metáforas psicanalíticas para fenômenos sociais, o que impõe prudência: a analogia entre o psiquismo individual e a cultura é fecunda, mas não deve ser confundida com identidade.
Há, ainda, um limite específico na aproximação entre categorias psicanalíticas e fenômenos coletivos. A utilização da noção freudiana de negação como recurso interpretativo não demonstra, por si só, que discursos sociais sobre o racismo resultem de mecanismos inconscientes equivalentes aos observados na clínica. Essa relação exige mediações teóricas e deve permanecer aberta à contestação. Da mesma forma, a formulação de Gonzalez sobre a neurose cultural brasileira é mobilizada neste ensaio como interpretação histórico-cultural, e não como diagnóstico psicológico de uma coletividade. Reconhecer esses limites não elimina a pertinência da articulação proposta; delimita seu alcance e evita que a interdisciplinaridade se converta em uma fusão indiscriminada de conceitos.
Por se tratar de um ensaio teórico baseado em revisão bibliográfica narrativa e interpretativa, as relações estabelecidas ao longo do trabalho devem ser compreendidas como hipóteses de interpretação fundamentadas na literatura mobilizada, e não como resultados de investigação empírica própria. Pesquisas futuras poderiam examinar como diferentes formas de negação se manifestam em contextos institucionais específicos, como escolas, universidades e serviços de Psicologia, investigando as relações entre discursos, práticas e efeitos concretos. Estudos dessa natureza poderiam avaliar em que condições a articulação entre dimensões subjetivas, históricas e institucionais oferece maior poder explicativo, sem presumir antecipadamente que todos esses planos operem da mesma maneira em todos os contextos.
A democracia racial também não foi apenas uma máscara. Guimarães (1999) sugere que o discurso da democracia racial funcionou também como promessa de igualdade, que podia ser cobrada do Estado e da sociedade e da qual o próprio movimento negro se valeu, em diferentes momentos, para exigir direitos. Essa ambiguidade indica que a negação não é monolítica e que existem brechas pelas quais ela pode ser contestada. Telles (2003), ao comparar o Brasil com os Estados Unidos, mostra que a mistura nas relações cotidianas convive com desigualdades verticais acentuadas, o que ajuda a explicar a força de uma narrativa de convivência que tem lastro em experiências reais de proximidade, mas que não se traduz em igualdade.
A análise também se concentrou em obras e autores consagrados, com ênfase em estudos de caráter teórico. Pesquisas empíricas recentes sobre a percepção do racismo, sobre a formação em Psicologia e sobre práticas pedagógicas na educação infantil poderiam testar, refinar ou contestar as hipóteses aqui formuladas. Essa é, inclusive, uma agenda de pesquisa que o presente trabalho deixa em aberto.
10 Considerações finais
Este artigo partiu de uma pergunta provocadora: por que o Brasil precisa negar o racismo para continuar funcionando? A trajetória percorrida permite responder, com as ressalvas indicadas, que a negação cumpre papéis que ultrapassam o plano das ideias. No plano histórico, ela decorre da necessidade de uma nação recém-saída da escravidão de reinventar sua imagem diante de um mundo que passava a condenar o racismo científico. No plano sociológico, ela dispensa o Estado e as elites de assumirem responsabilidade pela desigualdade e transfere à população negra o ônus de sua própria exclusão. No plano psíquico, ela protege a coletividade e, em especial, o grupo branco de uma angústia associada ao reconhecimento da violência fundadora e dos privilégios que dela derivam.
A leitura de Lélia Gonzalez sobre a neurose cultural brasileira e a de Cida Bento sobre o pacto narcísico da branquitude convergem em um ponto: a negação é defesa, e não ignorância. Isso explica por que campanhas de informação, isoladamente, têm alcance limitado. É possível conhecer dados e continuar negando seus significados. Enfrentar a negação supõe, assim, um trabalho que inclui, ao lado da produção de conhecimento, a elaboração do desconforto, a assunção de responsabilidades e a redistribuição de poder e de recursos.
Para a Psicologia, o desafio é duplo. Por um lado, a área precisa ampliar seus referenciais, incorporando de modo sistemático a produção de autoras e autores negros e brasileiros, e tratar a raça como dimensão constitutiva da subjetividade, e não como tema opcional. Por outro, precisa olhar para si mesma, interrogando os silêncios de sua história e de sua formação. Isso envolve, em especial, o trabalho com a infância, em que a negação ensina desde cedo o que pode e o que não pode ser dito, e em que práticas pedagógicas e afetivas podem reforçar ou desfazer o pacto do silêncio.
Reconhecer o racismo, por fim, não é um gesto de culpabilização, mas de responsabilização: trata-se de deixar de proteger uma imagem de país para poder cuidar das pessoas concretas que o compõem. Se a negação é um sintoma, sua elaboração é também a possibilidade de uma sociedade menos adoecida. A pergunta que inicia este texto permanece aberta, e talvez seja essa a melhor maneira de concluí-lo: um país que não precisa mais negar o racismo é um país que aprendeu a conviver com a própria história e a transformá-la.
Onde a negação aparece hoje, e o que fazer com ela
Segundo o Censo 2022 do IBGE, 55,5% dos brasileiros se declaram pretos ou pardos e 43,5% brancos. Uma maioria que, em tese, tornaria o racismo impossível de ignorar. Mesmo assim, o assunto ainda é tratado como exagero. O artigo de Laryssa explica por que isso persiste, e dá para reconhecer o mecanismo em cenas bem comuns.
Três jeitos de negar, três frases conhecidas
Literal: “aqui no Brasil ninguém liga para cor”. Afirma que os fatos não existem.
Interpretativa: “foi só brincadeira”, “o problema é de classe”. Admite o fato, mas tira dele o significado racial.
Implicativa: “racismo existe, mas cota não resolve” ou “condeno o racismo” sem mudar nenhuma prática. Reconhece e evita as consequências.
O que a lei já diz, e o que ainda falta
O racismo é crime inafiançável e imprescritível desde a Constituição de 1988. A injúria racial passou a ser tratada como racismo em 2023 (Lei 14.532). A Lei 10.639/2003 obriga o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas, mas o artigo lembra que sua efetividade depende de formação docente, material e compromisso institucional. A lei existe; o cotidiano é onde a negação resiste.
Três perguntas práticas
Na escola ou na faculdade: quem escrevemos, lemos e citamos? O currículo traz autoras e autores negros e brasileiros como referência, ou só como tema de uma semana?
No trabalho: quem é contratado, promovido e ouvido? Olhar os números por cor é o primeiro passo para sair da conversa sobre intenções e entrar na conversa sobre resultados.
Na conversa: quando alguém relata um episódio de racismo, a primeira reação é ouvir ou defender quem foi acusado? O artigo mostra que o desconforto de quem escuta costuma ocupar o lugar do sofrimento de quem fala.
Reconhecer o racismo não é um gesto de culpa. É o começo de uma responsabilidade que se pode exercer, e o NEXO existe para dar a ela referências sólidas.
Leitura NEXO · Equipe NEXO Conhecimento · Este card é um comentário editorial e não faz parte do artigo da autora.
Referências
- ALMEIDA, Silvio Luiz de. *Racismo estrutural*. São Paulo: Pólen, 2019.
- BASTIDE, Roger; FERNANDES, Florestan. *Brancos e negros em São Paulo*. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959.
- BENTO, Maria Aparecida Silva. *Pactos narcísicos no racismo*: branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público. 2002. Tese (Doutorado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002.
- BENTO, Maria Aparecida Silva (Cida Bento). *O pacto da branquitude*. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
- BONILLA-SILVA, Eduardo. *Racism without racists*: color-blind racism and the persistence of racial inequality in the United States. Lanham: Rowman & Littlefield, 2003.
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Declaração de uso de IA
A autora declarou o uso de ferramentas de inteligência artificial apenas para tradução e busca de referências. O texto é de autoria dela.
Como citar este artigo
ARAÚJO, Laryssa Grazielly de Lima Sousa. Por que o Brasil precisa negar o racismo para continuar funcionando?. Revista NEXO, v. 1, e0014, 2026. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.23688991.
Araújo, L. G. D. L. S. (2026). Por que o Brasil precisa negar o racismo para continuar funcionando?. Revista NEXO, 1, Article e0014. https://doi.org/10.5281/zenodo.23688991
